#9 Doente? C'est la mode, c'est très chic. “A Policitemia de Dona Lindoca” de Monteiro Lobato
Transcrição

INTRODUÇÃO - 00:00 a 01:37

Olá meu querido e minha querida! Bem-vindo ao Literatura Viral, o podcast que discute literatura e epidemias. Meu nome é Áureo Lustosa Guérios e eu sou doutorando em Literatura Comparada pela Universidade de Pádua. Você tem me acompanhado em um percurso em que eu discuto o lado positivo das epidemias, ou pelo menos o lado menos ruim da forma como ele aparece em alguns contos literários. Nós discutimos como as epidemias tiveram o poder de reunificar as relações em uma pequena cidade fragmentada pelo culto de dois santos, nos episódios 6 e 7, um conto de Giovanni Verga. Depois nós discutimos como ela também pode ser uma oportunidade de crescimento moral filosófico existencial para o indivíduo, usando um conto da Susan Sontag - Assim Vivemos Agora. E no mesmo conto, como a doença desse indivíduo acabou propiciando aos amigos também uma possibilidade de fortalecer os vínculos, de demonstrar carinho, afeto, aceitação, e de executar pequenas tarefas que são necessárias para o grupo. Em ambos os casos as epidemias acabaram gerando união.

Hoje nós continuamos na mesma direção, discutindo um conto em que há doenças populares e doenças da moda, médicos charlatões e quase que até um tantinho de inveja pela paciente. Um texto de Monteiro Lobato, senhoras e senhores, A Policitemia de Dona Lindoca. - Eita nomezinho convidativo, A Policitemia... -

UMA VISÃO POSITIVA DA DOENÇA E "EM BUSCA DO SENTIDO" DE FRANKL - 01:38 a 06:48

No episódio anterior você me ouviu falar sobre como momentos de crise como ao que estamos vivendo agora, momentos de surtos de epidemias, podem ser uma oportunidade para fortalecer laços sociais. Uma oportunidade de crescimento individual e coletivo. E eu iniciei o episódio anterior falando do trabalho de um grande historiador, Samuel Cannon Jr., que se chama Epidemics: Hate and Compassion from the Plague of Athens to AIDS - Epidemias: ódio e compaixão da Peste de Atenas a AIDS. Esse é um trabalho excepcional e que de uma certa forma é contra a corrente, porque muitos dos historiadores e dos epidemiologistas normalmente tendem a enfatizar o lado ruim, tumultos, violência, mobilidade limitada das pessoas, e etc. Mas existe um lado, um fenômeno de compaixão e que às vezes, claramente, é ínfimo comparado as mazelas que as epidemias causam. Mas mesmo assim ele existe e é importante a gente notar a existência desses pequenos atos. Eu mencionei como em vários lugares jovens se voluntariam para fazer compras, por exemplo, para as pessoas mais velhas; ou as pessoas que aplaudem o trabalho dos profissionais da saúde das janelas, como uma forma de agradecimento; e especialmente o heroísmo reiterado e cotidiano desses profissionais da saúde, que efetivamente arriscam suas vidas e trabalham turnos exaustivos e extenuantes para poder contribuir com a sua parte. Então hoje eu vou continuar falando desse lado positivo, de uma certa medida. Um lado que, na minha opinião, merece ser discutido. Porque é muito fácil a gente focar no negativo e deixar o positivo passar de "mão beijada".

Mas claramente esse lado positivo é inferior e talvez ínfimo com relação as mazelas que as epidemias causam. Então eu tenho plena consciência disso e eu faço essas discussões com enorme respeito pelo sofrimento e dor que ela causa no mundo e eventualmente luto. A situação já é ruim o suficiente, ela provavelmente vai piorar num futuro próximo, o COVID não vai desaparecer de um momento a outro. E todos estão fazendo a sua parte, alguns mais, outros menos. Mas se você se interessou em ouvir esse podcast, em primeiro lugar eu não tenho dúvida que você está fazendo o possível. (risos) Mas de uma certa forma a gente está de mãos atadas nesse momento, e muito do medo e da angústia vem justamente desse fato. Do fato de que não há tantas coisas assim que a gente possa fazer.

E nesse contexto me vem à cabeça um pequeno ensaio muito muito curto, cerca de cem páginas e absolutamente brilhante, de Viktor Frankl, ele é um fundador da Terceira Escola Vienense de Psicoterapia, que é chamada de Logoterapia. Ele é judeu e durante a Segunda Guerra Mundial ele passou diversos anos em Campos de Concentração e sobreviveu a Auschwitz. Ele escreveu esse pequeno ensaio que se chama Em Busca De Sentido. E a ideia desse ensaio parte do princípio que se Auschwitz é a encarnação do mal, se Auschwitz foi a pior coisa que um ser humano pode conceber, foi a pior tortura que um ser humano possa passar, por que tentar sobreviver a Auschwitz? por que ele não se matou? Basicamente ele tenta justificar não ter se suicidado para evitar esse sofrimento. Essa é a pergunta de que partiu o ensaio dele e se trata de um ensaio muito rico. Mas algumas das ideias que ele apresenta são quase que singelas na sua simplicidade e duas delas são justamente: se você pode mudar o mundo, então mude; se você pode resolver, solucionar o seu problema, então solucione; essa é a primeira coisa que Frankl (risos) diz, não é algo óbvio né. A segunda, no entanto, é: se isso não é possível, então você tem que mudar você mesmo, você tem que mudar as suas expectativas e as suas pretensões. Porque certas coisas no mundo são imutáveis e então cabe a nós se reanalisar para poder se vergar a elas. E isso não é uma forma de fatalismo, da forma como Frankl apresenta. Poderia vir a ser, mas não é a forma como ele trata. Ele é sagaz demais para cair num erro tão bobo. Então é um ensaio que eu certamente recomendo, e eu certamente acredito estar praticando isso neste momento, (risos) porque informação é, certamente, uma coisa que está ao nosso alcance e que tem um papel
inegável nas concepções que a gente tem de nós mesmos, dos outros e da sociedade que a gente pertence. Eu posso participar ensinando literatura, (risos) e é isso que eu fui procurar fazer! - E bora falar de literatura antes que eles mudem o meu podcast lá para a seção de autoajuda né! Simbora!


ANÁLISE DO CONTO A  POLICITEMIA DE DONA LINDOCA e UMA VISÃO POSITIVA DA DOENÇA - 06:49 a 34:48

A Policitemia de Dona Lindoca é um texto do Lobato né! Ai, ai, ai, ai Monteiro Lobato, Monteiro Lobato! Monteiro Lobato tem que ser tratado com certa cautela, ele tem os seus méritos, mas ele tem os seus deméritos e os seus deméritos são significativos. Do ponto de vista da história da cultura e da história da medicina no Brasil, Lobato é uma figura muito importante, porque ele ocupa esse lugar de intelectual que faz a ponte entre a população e os cientistas. Ele tem ligações com Oswaldo Cruz e com o movimento sanitarista no Brasil, que está se formando no início do século. E eu mencionei anteriormente a reforma de Pereira Passos, e há várias mudanças sociais, mas especialmente urbanas, que estão acontecendo ao longo da primeira década, da segunda década do século 20 que o Lobato acompanhou. Então para o tema do nosso podcast ele é relevante nesse sentido. Ele também trata de doenças em vários dos seus contos e às vezes de forma criativa, como no conto que a gente vai discutir hoje. Mas é muito importante quando a gente trata da obra do Lobato a gente reconhecer que há muito racismo lá dentro, coisa que não é frequentemente dita ou que pelo menos não é dita com a frequência que ela merece ter. Isso é verdade, não só do Lobato, isso é verdade de diversos autores da Literatura Brasileira. Eles devem ser sim compreendidos dentro do seu contexto histórico, mas é importante que a gente problematize esses autores e discuta a presença desses elementos questionáveis na obra de diversos escritores e não só dos brasileiros. É algo que a Academia, a Universidade, de um modo geral, analisa com certa frequência. Mas ainda assim há muito campo para debate, muito campo para problematização e muitas dessas discussões não atingiram, de fato, a sociedade civil, na minha opinião. Nós precisamos afrontar os elementos problemáticos da produção desses autores, porque eles são celebrados como autores nacionais, como grandes autores. 
No entanto, a gente não pode agir como a "mãe superprotetora" que celebra todas as vitórias dos filhos, mas se nega a reconhecer qualquer falha e qualquer demérito que eles possam ter. Há muito de demérito em diversos escritores da Literatura Brasileira e a gente precisa discutir muitas dessas coisas. Essa é, justamente, uma das muitas funções sociais que a universidade preenche. Isso é uma coisa que diz respeito à obra do Lobato de um modo geral, não diz respeito tanto ao tópico que eu vou tratar aqui. - Mas a minha função aqui é de entregar o disclaimer, eu não posso fazer de conta que essas ressalvas não existam. Por mais que eu não vá discutir um tema tão polêmico, pelo menos não ainda, porque a gente só saiu sete vezes né ouvinte! Poxa, primeiro você podia me levar para jantar, não é tão assim também não né! Não vou sair discutindo o tema tão polêmico já de cara. (risos) Pô, preciso de tempo! 

Esse conto faz parte de uma coleção de 1920, que se chama Negrinha. Ele é o primeiro dos textos literários que eu discuto que não representa uma epidemia, ele trata da doença de um indivíduo, A Policitemia de Dona Lindoca. E esse título já é um título bem curioso, porque ele contém uma palavra médica - policitemia - e um nome próprio. Então o título acaba sendo uma certa incógnita para a gente, porque a gente não sabe, a não ser que você tenha um treinamento médico. O título não diz muita coisa, o quê que é uma policitemia, a gente sabe que é uma doença, poderia se chamar A Doença de Dona Lindoca; A Convalescença de Dona Lindoca. E vejam que se essa fosse a escolha, esse título iria se parecer um pouco mais com os outros, porque os outros contos que a gente discutiu até agora tinham títulos muito genéricos: A Peste, O Medo, A Máscara... Qual máscara? Ah, a da morte rubra; Qual guerra? A dos santos. Então eles são bastantes genéricos mesmo quando eles são especificados, a especificação não é tão clara. Enquanto que aqui a gente tem um nome próprio: é a Dona Lindoca. Ou você conhece ou você não conhece. E a doença que ela tem não é uma doença, é a policitemia. 

A policitemia é uma condição médica em que o sangue acaba tendo glóbulos vermelhos demais e por isso ele se torna mais viscoso, o que pode gerar diversos problemas, como ataque cardíaco, acidentes vasculares, tromboses e etc. E os sintomas incluem mal-estar, dor de cabeça e fraqueza, vários outros também, mas o que interessa para o nosso conto aqui são esses pequenos sintomas. A do mal-estar, porque Dona Lindoca não está muito satisfeita com a vida que têm. E essa informação já nos é dada na
primeiríssima frase: "Dona Lindoca não era feliz."
Então o conto começa não apresentando Dona Lindoca, mas oferecendo para a gente uma única característica que tenta resumir toda a vida dessa personagem, ela é infeliz. Por que? Porque ela já é uma quarentona, ela já está sentindo que ela está envelhecendo... e ela "passa a vida a amofinar-se com criados e coisinhas.". Então ela é excessivamente meticulosa com coisinhas pequenas da vida doméstica. É importante perceber que nesta terceira frase já existe uma distinção que vai ser importante lá para frente. A Dona Lindoca está insatisfeita porque ela considera que a vida dela é algo insignificante, os filhos dela não dão mais atenção para ela, o marido nãose importa mais com ela, e ela tem que se acontentar em aborrecer-se, - amofinar é isso - é perder a paciência, a irritar-se - com criados e coisinhas. Olha que interessante a "servitude" da casa é colocada ao mesmo nível de "coisinhas", - o que já demonstra para gente que esse personagem que vai ser visto como empático, como uma personagem carinhosa, que talvez vai adoecer justamente por causa do desamor e do despeito do mundo, na verdade não é tão carinhosa assim. Ou melhor, ela seleciona muito bem o alvo do carinho dela. Então aqueles que estão ao seu nível, que no conto será visto como um nível socioeconômico, a esses ela destina o seu carinho e a sua atenção. 
No entanto, para aqueles que ela percebe como "abaixo dela", esses estão efetivamente ao nível de coisas, eles são criados e coisinhas. Esse já é um dado importante porque o conto é muito divertido e ele demonstra a grande ironia desse conto todo. O ridículo, de uma certa forma, que vai se desenvolver.
Então continuando a ação e eu vou terceiro parágrafo: "Isso, porém, não traria dona Lindoca mal de monta, excedente a suspiros e queixas às amigas, se a certeza da infidelidade do Fernando não visse um dia estragar tudo. Estava a boa senhora a escovar-lhe o paletó quando sentiu vago aroma suspeito. Foi logo aos bolsos - e apanhou o corpo de delito em um lencinho perfumado.". (risos) 
Bom, então o início do parágrafo vai mostrar para a gente essa dona Lindoca, que tem poucas preocupações que realmente importam e que, no entanto, se queixa muito dessas coisas às amigas – first world problems. E uma parte da comicidade do conto vai vir justamente do fato de que essas preocupações são ínfimas, mas a dona Lindoca exagera elas como se elas fossem um flagelo gigantesco. Até que ela descobre sinais da infidelidade de Fernando. - Vejam como o texto já insere o nome do marido, e assim como Verga fez no Guerra de Santos, ele conta com uma sagacidade do leitor para preencher certos vazios. 
O texto é muito ágil, ele vai muito rápido, não existiu descrição da dona Lindoca muito específica. A gente não sabe, por exemplo, como ela é fisicamente, a gente sabe que ela é quarentona e que está envelhecendo, a gente não sabe se é loira, se é morena, se tem olho claro ou olho escuro, se é baixinha, se é gordinha, se é magrela, a gente não sabe nada sobre ela. Assim como a gente não sabe nada sobre Fernando. E essa agilidade do texto ajuda na comicidade porque permite ao Lobato de focar em pequenas ações mais engraçadas, ao invés de ficar perdendo tempo com descrições, etc. Uma outra coisa interessante desse trecho é que quando ela encontra o lenço com aroma, "o aroma é suspeito" né, então imediatamente o texto vai adotar um jargão policial, como se tratasse de um efetivo trabalho de detetive. Então isso já é divertido. Ela foi aos bolsos, ela "apanhou o corpo de delito num lencinho perfumado" né. E ela então indaga o Fernando: "Fernando, você deu agora para usar perfume? - indaga a santa esposa...". Vejam como o "santa" está aqui também para enfatizar o fato de que ela agora está por cima da carne seca, porque ela pegou o marido com a "boca na botija" né. E o texto vai continuar com essa ênfase: "O marido, pegado de surpresa, armou a cara mais alvar de toda a sua coleção de "caras circunstanciais" e murmurou o primeiro rebate sugerido pelo instinto de defesa: - você está sonhando mulher... Mais teve de render-se à evidência, logo que a esposa lhe chegou ao nariz o crime. Há coisas inexplicáveis, por mais lépida que seja a presença de espírito de um homem traquejado. Lenço cheiroso no bolso de marido que jamais usou perfume, eis uma. Põe em ti o caso, leitor e vai estudando desde já uma saída honrosa para a hipótese de te suceder o mesmo.". E a resposta do marido qual é: "Pilhéria de mau gosto do Lopes...". Há várias coisas legais nesse trecho, uma delas é a continuação dessa brincadeira como uma investigação policial. Então a esposa coloca "o crime no nariz do marido" que é "um homem traquejado". Mas mesmo assim ele tem uma certa dificuldade de "do nada" inventar uma desculpa. 
E aí o texto se refere ao leitor também para criar efeito cômico dizendo: - Olha leitor, já vai pensando, porque se um dia te acontecer isso, já tem uma desculpa pronta! - Então isso é uma piscadinha de lado para o leitor, é uma pequena piadinha interna ali, um hashtag "tamo junto"... E eu inclusive argumentaria que a comicidade aqui aumenta, não só por causa do uso desse jargão policial e dessa olhadinha safada para o leitor, mas também pelo fato de que o vocabulário aqui é algo elegante. O Lobato emprega um português áulico, um português elevado, que talvez para a gente acabe soando mais chique do que soava a na época. Porque a gente não fala mais "pilhéria" e nem "amofinar". Isso acontece às vezes em literatura, o tempo passa e uma linguagem que antes soava um pouco mais normal, um pouco mais corriqueiro e cotidiana, com o passar do tempo as vezes começa a soar muito mais elegante, justamente por ser mais envelhecida. Então existe um pouco esse fator, aqui ele também está em jogo. Mas ainda sim
o autor resolve empregar palavras como "lépido". Então é uma certa riqueza vocabular, que também foi uma estratégia adotada pelo Poe, por exemplo, no A Máscara da Morte Rubra com todo um outro objetivo, lá o objetivo era criar um certo efeito de linguagem empoeirada, que se combina com a decrepitude daquele monastério, etc. Aqui o objetivo seria mais criar uma certa dissonância entre o ridículo da cena que está sendo contada, que o narrador diz
para o leitor - "encontre uma saída honrosa.". E tudo que pode ter aqui é, pode ser tudo menos honroso. Porque o Fernando, foi pego no ato, não tem muito o que dizer, ele é culpado e ele sabe disso. E a gente sabe disso e o narrador sabe disso. E o narrador sabe que a gente sabe. A gente sabe que o narrador sabe que a gente sabe. (risos) Então todo mundo entende que o uso da palavra honrosa aqui, honroso aqui é irônico. E a gente usar uma linguagem um pouco mais elegante para descrever uma coisa que é tão prosaica e tão corriqueira, gera também o efeito cômico, justamente porque é inapropriado. E a prova real disso é que se ele tivesse usado uma linguagem corriqueira, para falar de uma coisa corriqueira, isso não iria ser engraçado. Essa é exatamente a estratégia que a Sontag no conto dela – Assim Vivemos Agora, em que a gente vê a linguagem fragmentada, a combinação de várias vozes, de todos os amigos que visitam o convalescente no hospital. Se ela tivesse empregado uma linguagem que não fosse com a habitual, ela não teria atingindo os efeitos que ela busca de criar quase que um documentário, como se ninguém soubesse que ela estivesse ali, como se o narrador fosse de uma certa forma um fantasma, que tivesse cortando pequenos pedaços da realidade e jogando eles ali para a gente. Se ela tivesse empregado uma linguagem elevada, a voz das personagens não seria como é, justamente porque ela não iria aparecer real. Então faz toda a diferença do mundo se um personagem diz "nem tudo que brilha é ouro", e outro personagem diz "nem tudo que corusca com refulgência é ouro". (risos) No fim das contas o que está sendo ali é mais ou menos a mesma coisa. Mas não, não sei, se a Sontag tivesse escolhido a segunda opção, ela não teria conseguido convencer a gente de que aquilo é real. Ela talvez tivesse demonstrando pra gente um traço psicológico do personagem, o personagem talvez seja um pouco boçal ou talvez o personagem tivesse fazendo uma piada, não sei. Há muitas possibilidades, mas certamente a gente não aceitaria ouvir "corusca com refulgência" no lugar de "brilha", como uma coisa natural. Certamente isso não é natural. - Porque olha, eu vou te dizer uma coisa, aqui em Floripa a gente fala tudo quanto é tipo de coisa estranha: ah né, a gente não fala coisa assim ô! Tais é louco! - (risos) Isso pode ser tudo, menos natural! Mas voltemos ao texto. O que vai a seguir é na verdade a descrição de como foi o casamento da dona Lindoca e do Fernando. E daí, na verdade, o texto vai dizer que ele não era tão mau marido, mas que eles, ele não tinha mais tanto interesse na esposa e os filhos casaram-se, saíram de casa e também não davam mais tanta atenção à mãe... O texto também vai dizer que a dona Lindoca é uma grande moralista e uma defensora da moral e dos bons costumes. Então ela é super chata e basicamente inferniza a vida todo mundo. Mas o que aqui me interessa é o fato de que o texto se abre dizendo que a dona Lindoca já era infeliz, que ela se queixava o tempo todo, mas que isso não teria causado nenhuma doença. Então o texto sugere uma relação de causa e consequência entre o estado emocional da personagem e a doença que vai eventualmente desenvolver. Aqui é importante a gente levar em consideração que a gente não está falando de doenças infecciosas, como que normalmente são epidemias, a ideia de contágio não está presente aqui. Então é a primeira vez que a gente vai encontrar uma distinção que vai ser muito importante para episódios futuros, que é a distinção entre a doença do indivíduo e a doença do grupo. Outra coisa que é curiosa é o fato de que o gatilho dessa situação toda é um cheiro, é um odor bom. E se a gente lembrar do segundo episódio, em que eu discuti o que são os miasmas, cheiros ruins que estão na atmosfera, de uma certa forma uma nuvem, uma fumaça, uma neblina que exala dos pântanos e das coisas em decomposição... e que você acredita que causa doenças. É uma teoria científica que existe até meados do século 19, que vai ser eventualmente desbancada. A questão é que se cheiro ruim causa doenças, talvez o cheiro bom cure doenças, faz sentido não faz? E é por isso que em episódios futuros nós vamos discutir, como eu prometi no episódio passado, a importância das flores. Porque os perfumes e os bons cheiros são sim empregados, corriqueiramente, em literatura como um antídoto aos miasmas.

E aqui existe um outro elemento, portanto algo irónico, que a gente também não é tão capaz de enxergar. Porque a dona Lindoca vai ficar doente não por causa de um cheiro ruim, mas por causa de um cheiro bom. Coisa que não deveria causar doenças, mas curar doenças. Então esse raciocínio é importante para o que virá a acontecer no conto. Além disso, o conto também oferece para a gente um outro dado, que é enquanto os filhos cresciam e a dona Lindoca estava ocupada com a criação dos filhos, a coisa também não era muito diferente, eu leio: "Nesse período longo e rotineiro, quanto perfume vago não trouxe da rua o doutor Fernando! Mas o olfato da esposa, sempre saturado com um cheirinho das crianças, jamais deu tento de nada.". (risos) Veja que existe, de novo, no discurso narrador, pequenas brincadeiras, ele fala em "cheirinho" né. A dona Lindoca então se queixa de estar se sentindo mal estar e o marido recomenda que ela vá ver um médico, mas o médico que ele menciona ela não aceita, justamente porque ela também sabia uma fofoca de que ele tinha relações extraconjugais e por isso ela reclama para o marido que eles são cínicos; "São todos os mesmos... Pois não vou ao Lanson. É um sujo. Vou ao doutor Lorena, que é um homem limpo, decente, um puro.". E aí é que entra uma coisa interessantíssima, ela vai ao consultório do médico que ela julga moralmente adequado. "No dia seguinte, dona Lindoca foi ao consultório do médico puritano e voltou radiante.". Vejam como aqui essa frase está na voz do narrador, mas o narrador emprega o aditivo puritano que vai de acordo com a visão da dona Lindoca.

É a dona lindoca que determina se o médico é bom ou não é, com base se ele tem amante ou não tem. Enquanto que o marido acha que essa informação é descabida e desnecessária, irrelevante. E, portanto, se o narrador usa esse adjetivo, ou ele tá comprando a visão da personagem, ou ele tá tirando sarro da visão da personagem. Não dá para saber ainda! Mas a coisa que é muito interessante é que ela volta do médico radiante. E qual que é a notícia dela? "Tenho uma policitemia", "garante ele que não é grave, embora requeira tratamento sério e longo.". Então ela fica feliz da vida por descobrir que ela tem uma doença e melhora porque essa doença, diz ela: "Que espanto é esse? Policitemia, sim, a doença da minha margarida e da grã-duquesa Estefânia, disse-me o doutor. Mas cura-me, assegurou... Como é fino o doutor Lorena! Como sabe falar!...". "Já vem você. Já começa a implicar com o homem só porque é um puro... Pois, quanto a mim, só sinto tê-lo conhecido agora. É um médico decente, sabe? Fino, amável, muito religioso. Religioso, sim! Não perde a missa das onze na Candelária.". E a discussão vai continuar. A questão é que ela afirma durante a conversa com o marido que essa é uma doença até distinta, uma doença de fidalgos, da rainha, da grã-duquesa... E vejam como essa informação "de uma doença de prestígio", uma doença da moda, aparentemente, né? Chique ter policitemia! Pelo menos na visão da nossa querida dona Lindoca. 
Essa visão bate muito bem com uma informação que nos foi dada lá no início do conto, de modo despropositado, já que ela passava a vida a amofinar-se com o criados e coisinhas. E essa distinção entre uma doença chique e uma doença plebéia, essa coisa já vai se aprofundar ainda mais no conto, é uma distinção muito importante para a forma como as doenças eram enxergadas ao longo do século 19. Já que as doenças eram causadas por causa de um desequilíbrio dos humores e existia uma pré-disposição emocional a contrair uma doença, e essa pré-disposição pode ser o medo, mas também pode ser outros fatores, como a infelicidade da dona Lindoca ou essa insistência em ser ranzinza. E por isso, ao longo do século 19, se aceita com muita naturalidade que há doenças de espírito elevado, como a tuberculose, que era vista como uma doença de artistas, de pessoas refinadas, de grandes literatos... Tanto que quando Keats, por exemplo, foi se tratar de tuberculose, grande poeta romântico inglês, o que foi recomendado para ele é que ele parasse de escrever poesia, como forma de tratamento, porque aparentemente a poesia era uma coisa que, nossa, tava consumindo a energia vital dele! Então vejam como há uma visão de que a arte e a literatura são quase como uma experiência mística, que drena a energia da pessoa né. Então, basicamente, a gente consegue perceber que escrever poesia está no mesmo nível de fechar o portal do upside down. (risos) - Quantas vezes a gente viu essa cena normalmente ligada a uma experiência mágica, né? Então, alguém faz a genki-dama suprema e destrói tudo e cai desfalecido ou o Neo fazendo uma luta final do Matrix e daí explode tudo e cai desfalecido, e etc. - Essa ideia de atingir os limites da força, da magia e cair por terra extenuado, é exatamente a ideia que vai ser atrelada a produção artística e a tuberculose no século 19. A gente vai discutir isso muito ainda para frente! E isso é particularmente evidente no nome que a doença tinha. A doença não era chamada tanto de tuberculose ou TB, na época "tb", mas sim de "consumption", consumo, justamente porque eles emagreciam muito. Então eles ficavam, eles se consumiam.

Mas também esse "consumir" era algum consumir físico, mas também era um consumir intelectual, espiritual, filosófico, não era o consumo como a gente pensaria hoje de comprar coisas Hermés, da Chanel, da Louis Vuitton... Embora poderia ser no caso da Dona Lindoca, porque está bem no tipinho dela mesmo! - E tudo isso vai estar por trás da doença da dona Lindoca, que não é a tuberculose, mas que está organizada nos mesmos parâmetros. O que que vai acontecer? O médico vai conversar com o marido e vai explicar que a doença, na verdade, é muito séria, muito grave e que, portanto, ele precisa de toda a assistência da família inteira. O marido então vai se arrepender e vai se culpar pela doença da esposa: "Pobre Lindoca. Tão boa de coração... Se azedou um bocado, a culpa foi só minha. O tal perfume...". Então vejam que realmente a causa da doença, inclusive o médico sugere isso, embora ele não diga isso com todas as letras, é justamente o tal do perfume. O marido se culpa e aceita essa culpa, e, portanto, se endireita e vai convencer os filhos a fazerem o mesmo. Vai dar uma posição privilegiada a Lindoca em casa, para que ela não tenha mais que se irritar com as tarefas domésticas... Uma tia vem morar com eles e passa a cuidar das coisas que enfadavam um tantíssimo a nossa cara senhora, como cuidar da criadagem. E a dona Lindoca começa a ser paparicada por todo mundo. "Viva a minha doentezinha! E abraçou-a e beijou-a na testa.", por exemplo, seu marido, depois que ele chegou em casa. E o comportamento dele é tão diferente que a própria Lindoca se espanta. E o que acontece? A vida da dona Lindoca, graças a sua doença, muda da água para o vinho.
"Os filhos passaram a vir vê-lá com frequência". O marido passa a se dedicar a ela, e além de tudo, cito: "Dona Lindoca sentia um certo orgulho da sua doença, cujo nome lhe soava bem aos ouvidos e fazia abrir a boca dos visitantes - policitemia... E como o marido e os demais lhe lisonjeassem a vaidade enaltecendo o chique das policitemias, acabou por considerar-se uma privilegiada.". (risos)

Então é maravilhoso, a melhor coisa que poderia acontecer na vida da dona Lindoca é, justamente, ficar doente. E a policitemia dela vira um privilégio, o texto diz isso com todas as letras. Essa doença a coloca ao pé, na visão dela e na visão dos que a cercam, da rainha Margarida e da grã-duquesa Estefânia. E eles passam a falar dessas duas nobres, abro aspas, "como se fossem pessoas de casa, havendo um dos filhos conseguido e posto na parede o retrato de ambas. E certa vez que os jornais deram um telegrama de Londres, noticiando achar-se enferma a princesa Mary, dona Lindoca sugeriu logo, convencidamente: - Vai ver que é uma policitemia...". 
E ainda melhora, porque ela lança a moda até que chega um momento em que "a baronesa de Pilão Arcado também está com policitemia. E também aquela grandalhona loura, mulher do ministro Francês - a Grouvion. - Sério? - Sério, sim. É doença de gente graúda, Lindoca. Este mundo!... até em questão de doença as bonitas vão para os ricos e as feias para os pobres! Você, a Pilão Arcado e a Grouvion com policitemia - e lá a minha costureirinha do Catete, que morre dia e noite em cima da máquina de costura, sabe o que lhe deu? Tísica mesentérica... Dona Lindoca fez cara de nojo. Eu nem sei onde "essa gente" apanha tais coisas."
Vejam como aqui o texto afirma, com todas as letras, que existe doença de rico e existe doença de pobre, esse é o jargão empregado aqui. E os pobres são "essa gente", entre aspas, e eles causam nojo na dona Lindoca, chegando ao ponto de que uma das ex-criadas dela vai ao médico e também recebe o diagnóstico de policitemia e ela diz: "Duvido! A Linduína com policitemia? Duvido!... Vai ver que quem disse tal bobagem foi Lanson, aquela topeira.", ou seja, pobre não pode ter essa doença dela. Então essa diferença, de um fator biológico que respeita classes socioeconômicas, como se elas fossem pré-estabelecidas pela natureza, né? Mostra para gente o quanto a doença também é uma construção social. E isso é exatamente o que um campo, como a antropologia médica, pesquisa. O que certas culturas postulam como doente, outras culturas postulam como perfeitamente são. E, às vezes, até como privilegiado, às vezes até tocado pelos deuses... então talvez seja uma pessoa de maior relevância social, ao invés de menor. 
É muito interessante como o campo da biologia e da medicina não são o mundo a parte, que não seja tocado pelo prestígio! Aí é que tá! É, como toda construção humana, a medicina também é um campo de batalha em que várias outras ideologias, de cunho político, econômico, social, cultural, artístico, também vão se manifestar. E a gente vai discutir isso mais, eu vou falar mais sobre a obra do Foucault posteriormente. No entanto, o mundinho feliz da nossa querida dona Lindoca estava prestes a cair por terra, porque seis meses depois do tratamento, o médico dela, o puritano doutor Lorena, fugiu para Buenos Aires com uma moça da alta sociedade. Então se desmascara, não só que ele não era esse homem puro e muito religioso, - "fossem todos assim e o mundo seria um paraíso", que são as palavras que a dona Lindoca dedica a ele, não só, ele não é nada disso, como se descobre ainda que ele é um médico charlatão, na verdade. 

 

MEDICINA E CHALATANISMO – 34:49 a 36:06

E vejam como esse é um outro momento da história da medicina, o momento que ainda medicina não é organizada ao redor do laboratório, ao redor de exames, não existem raio-x, a medicina não passou por um processo de visualização. Existem poucos instrumentos que o médico vai usar e a atenção que o médico dedica aos pacientes é holística, ele leva em consideração todos os fatores, alimentação, o sono, as relações sociais, etc. Então enquanto que hoje a prática da medicina, a gente aceita, naturalmente, que a medicina seja exclusivamente formada por elementos biomédicos, então a gente fica falando em contagem de células, em quantidade de uma certa substância no sangue ou granulações que aparecem e o raio x do pulmão. O século 19 vai ver ao contrário, nenhuma dessas técnicas está disponível para eles e, portanto, a medicina permite um maior, um espaço muito maior, que é o charlatanismo. E a gente vai discutir no próximo episódio justamente a mutação da figura do médico na Literatura e na Arte, como o médico se transforma... - infelizmente aqui eu posso falar em "O" médico, porque na literatura, até muito recentemente, era sempre homem.  Na Literatura, a imagem do médico evolui de um total charlatão ao supremo herói, e a gente vai discutir essa transição no próximo episódio. 

DONA LINDOCA E UMA VISÂO POSITIVA DO ADOECER - 36:07 a 38:59

 

Pra terminar o nosso conto com a dona Lindoca, um novo médico assume o caso dela e se descobre que ela nunca teve policitemia, é isso pra ela é uma desgraça, ela está perfeitamente saudável. Portanto, o marido volta a ter casos, os filhos passam a ignorar ela, tia Gertrudes volta para a casa do interior e o conto se fecha com: "Em suma, a infelicidade de dona Lindoca voltou com armas e bagagens, fazendo-a suspirar suspiros ainda mais profundos que os de outrora. Suspiros de saudade. Saudade da policitemia...". Eu selecionei esse conto para discutir aqui, porque ele é muito divertido e ele traz uma visão muito positiva da doença, justamente, porque ele brinca com as associações automáticas que a gente faz entre doença e coisa ruim, saúde e coisa boa. 
No caso específico da dona Lindoca essa relação é invertida, isso cria uma situação que é um prato cheio para ser explorada comicamente. E essa talvez seja, justamente, uma das funções que a Literatura vai preencher num momento como esse. No que se permitir em criar um mundo ficcional em que essa situação seja possível, porque quantas vezes, no mundo real, a gente vai, efetivamente, encontrar uma situação como essa? Às vezes até é para ficar contente, às vezes né... – Quando você teve um desarranjo ali bem no dia da prova, daí você consegue um atestado médico e vai fazer num outro dia, aí você estuda para segunda prova e tira nota melhor né? Às vezes até que há males que podem vir para o bem! Mas essas coisas não se, não acontecem com tanta frequência no mundo real. Mas a Literatura pode oferecer isso para gente, justamente, porque ela não comporta consequências práticas. 
Se você vê alguém andando na rua e a pessoa cai no chão, sei lá, a coisa pode ser engraçada desde que a pessoa não se machuque né? Se existem consequências e a pessoa se machuca, só uma pessoa particularmente malévola efetivamente se divertiria com uma situação dessa. Então para que uma piada, para que uma pegadinha faça sentido, para que ela seja engraçada, ela não pode ter consequências, né? Quando eu vejo o pateta caminhando e eu vejo uma casca de banana no chão, eu imediatamente sei, como qualquer criança que já viu um desenho animado na vida sabe, que ele vai pisar em cima da casca de banana e que ele vai cair no chão, mas que não vai acontecer nada. Ele vai levantar e no máximo ele vai ter uma sujeirinha na bochecha que ele vai apagar e continuar feliz da vida, serelepe, o percurso dele. - E esse é justamente o motivo pelo qual esse conto é tão interessante. Porque ele propõe uma situação, algo improvável, que não apresenta maiores consequências. Mas justamente no inverter essa relação automática, ele faz com que a gente possa vislumbrar esse "automatismo" em primeiro lugar, e assim perceber que não sempre, em todos os casos, necessariamente, o que advém de uma doença seja sempre completamente ruim. Nada no mundo é completamente bom ou completamente ruim né? - Se perfeição existisse chocolate não engordava né? E aqui então concluímos a nossa discussão da policitemia de dona Lindoca! 

 

PRÓXIMO EPISÓDIO: O MÉDICO CHALATÃO -  39:00 a 39:24
 

E no próximo episódio eu vou aproveitar "a deixa" do nosso querido médico charlatão, para discutir a história cultural, a história da medicina e a representação da figura do médico, nas literaturas de 1800 até o dia de hoje. Até a próxima, um abraço!

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