#8 A harmonia de muitas vozes: "Assim Vivemos Agora" de Susan Sontag
Transcrição

INTRODUÇÃO – 00:00 a 01:34

Olá meu querido e minha querida, esse é o Literatura Viral! O podcast em que eu discuto literatura e epidemias. Meu nome é Áureo Lustosa Guérios, eu sou doutorando em literatura comparada na Universidade de Pádua na Itália. Até agora você me acompanhou em uma discussão sobre o lado bom das epidemias, digamos assim. (Risos) Nada nesse mundo é puramente ruim e puramente bom. E, por isso, nós estamos fazendo um esforço aqui para rapar o tacho e encontrar talvez perspectivas positivas, que possam ajudar a gente nesses tempos de crise do Corona.
Nos dois episódios anteriores você me ouviu discutir um texto cômico, em que três personagens se comportavam de forma inusitada. No momento de bonança, em que eles poderiam estar unidos, é justamente o momento em que eles quebravam o pau, sendo sacrílegos inclusive.
Mas, paradoxalmente, no momento de crise causada pela seca e, principalmente, pela epidemia de cólera, os mesmos personagens se mostraram caridosos e pios, e o vínculo social que anteriormente fora rompido entre eles se fortaleceu muito, de modo que o problema foi resolvido. Hoje nós continuamos falando sobre esse potencial de aproximar e de unir que as epidemias têm. Nós vamos fazer isso através de um texto de Susan Sontag, "Como vivemos agora" - "The way we live now".

NOSSAS IDEIAS SOBRE TRABALHO E A ETIMOLOGIA – 01:35 a 06:27

Pois é senhoras e senhores, aqui estamos nós! Seguimos em quarentena no dia 25 de março de 2020. Se você está me ouvindo agora, não precisa de uma bola de cristal para adivinhar que muito provavelmente você está em casa também! Pessoa sensata que você é! E uma vez que, no momento, o que me preocupa é discutir elementos positivos das epidemias, eu já vou começar com o que eu acho que vai ser uma contribuição de longo prazo dessa crise do Corona. Quantos de nós estão trabalhando de casa, fazendo home office, trabalhando pela internet? Para quantos de nós isso era uma realidade há um mês atrás?
A capacidade técnica para trabalhar pela internet já existe há muito tempo e ela, às vezes, tem custo zero. No entanto, isso não é muito aplicado no cenário de trabalho do Brasil, em grande medida, por causa de barreiras culturais. A gente associa a ideia de trabalho a essa coisa que tem que ser torturante, tem que ser chefe chato, tem que ser uma coisa ruim, se não for ruim, não é trabalho. Por isso, automaticamente, trabalhar de casa vira um oba oba. Eu acho que não é injusto da minha parte dizer que essa é a ideologia dominante, com respeito ao trabalho no Brasil. Mesmo empresas que são da área tecnológica muitas vezes têm uma certa resistência a fazer home office. Essa ideologia que associa a ideia de trabalho a ideia de dor, de tortura, inclusive já está imbuída na etimologia da palavra. Porque a palavra trabalho vem do latim "tripalium", que é na verdade um instrumento de tortura, usado para torturar escravos na antiga Roma. É por isso que a palavra trabalho é usado em Homero, por exemplo, como sinônimo de sofrimento. Lembremos dos primeiros versos da Ilíada: "Canta-me ó musa a cólera de Aquiles Pelida causa que foi de os aqueus sofrerem trabalhos sem conta." Os aqueus são os gregos. Então Aquiles foi a causa de os gregos terem sofrido "trabalhos sem conta", ou seja, sofrimentos infinitos. Essa mesma conotação da palavra é o que sobrevive no trabalho de parto. Quando a mulher entra em trabalho de parto, ela começa a experimentar dor e, portanto, o trabalho de parto. Em italiano a coisa também não é muito diferente, porque o termo é "lavoro" que vem do latim "labor", que quer dizer sim trabalho, mas também quer dizer esforço, fadiga, em alguns casos até doença. A coisa não melhora muito não se a gente continuar mudando de língua. Em alemão é "arbeit", que vem de uma palavra do indo-europeu que quer dizer órfão, e ele sobrevive em inglês na palavra "orphan".
Isso, provavelmente, indica algum tipo de servo ou escravo, de alguma maneira. Porque uma criança órfã, na antiguidade, provavelmente seria acolhida, talvez não de forma tão benéfica assim e talvez escravizada. A mesma coisa acontece no russo. A palavra russa para trabalho era "rabota", que vem da raiz rabota, que é escravo, tanto que a palavra "robot" (robô) vem dessa raiz. Ela foi inventada por um escritor da República Tcheca chamado Karel Čapek, que escreveu uma peça de teatro em 1921 que se chama R. U. R., é uma sigla, e nessa peça ele cunha o termo Robot. Porque um cientista inventa robôs e aí ele nomeia os robôs de escravos. Então vejam como as palavras (risos) que a gente usa para se relacionar com essa prática de trabalhar são palavras que são obscuras. - Se você tem um daqueles cachorrinho robô que fica correndo pela casa, tu já pode olhar para ele de um modo um pouco diferente e se ele não lavou a louça, pode reclamar! - O X da questão é (risos) que falei, falei, mas o que eu quero dizer é que uma das coisas que eu acho que o Corona vai trazer para a mentalidade relacionada ao trabalho no Brasil vai ser, justamente, a prática do home office. Ela, sem dúvida, vai se popularizar porque ela está tendo que nascer agora do nada. Na verdade, para tantas pessoas o trabalho deve ter virado uma confusão sem fim, né. - Tem gente aí que está mais perdido que pijama em lua de mel. - No entanto, logo essa coisa vai se normalizar. Uma vez terminada a crise dificilmente as coisas vão voltar, efetivamente, a ser como eram. Se você tiver que fazer aquele dia, poxa, tem que ir pro médico, fazer um home office, o teu chefe vai empombar bem menos. Essa é uma das coisas que eu acho que o Corona vai trazer de bom para gente. - Áureo o que que isso tem a ver com literatura? Nada, no duro, eu citei Homero justamente para esconder esse fato. – Dito tudo isso, eu já posso entrar no tema do episódio de hoje, que é ninguém mais ninguém menos que Susan Sontag. Uma intelectual que tem assim a estatura do Monte Everest, provavelmente. (Risos) 

LITERATURA E BIOGRAFIA – 06:28 a 08:25

Até agora você tem me ouvido falar muito pouco da biografia dos escritores. Eu faço isso de propósito! Isso pode ser um pouco surpreendente, para alguns de vocês, porque a forma como a gente estuda Literatura no Ensino Médio e a forma como a gente discute Literatura na esfera pública, em enorme parte, é imbuída de biografismo. Como se estudar Brás Cubas, na realidade, significasse você ter que aprender a biografia do Machado de Assis de trás para frente, para eu conseguir entender as mensagens cifradas que estão lá dentro. Essa insistência sobre biografismo é uma coisa típica da forma como a Literatura era tratada no século 19. Na academia ela foi largamente abandonada. Ela é uma possibilidade de estudo da Literatura e que se faz em alguns contextos, em alguns casos. Mas ela, certamente, não é a forma de se aproximar da Literatura e nem a mais interessante ou a mais produtiva ou a mais reveladora.
Biografismo tem a sua relevância? Até que tem, até que tem. Mas ele é essencial, é uma condição sine qua non para que exista interpretação literária? Não, e a prova viva disso é que a base ou uma das colunas vertebrais do cânone ocidental, cânone que é esse conjunto de trabalhos que nós consideramos obras-primas, trabalhos de enorme qualidade, uma das colunas dorsais do cânone literário é o Homero, que escreveu dois poemas gigantescos e maravilhosos, A Ilíada e A Odisseia, cuja vida a gente ignora completamente. A gente não sabe nem se ele era uma pessoa ou um grupo de pessoas. A gente não sabe, absolutamente, nada sobre o Homero. Se a interpretação de um texto literário depender da vida do autor, fudeu, fudeu... Vai lá na Federal fechar o curso de clássicas, manda todo mundo pastar, porque acabou. Não tem mais o que falar de Homero. Opa, menos um livro na minha estante que eu não tenho que ler. - Ó! Tem gente que até vai ficar feliz com essa notícia.

SONTAG ENSAISTA - 08:26 a 13:31

No entanto, dessa vez eu não posso me esquivar, eu não posso me esquivar de falar um pouco de biografia porque a Sontag é uma espécie de intelectual, algo raro. Na minha opinião merece muito respeito e emulação. A Sontag, realmente, é um exemplo a ser seguido. Então há três coisas que eu acho que são essenciais na hora da gente pensar sobre a Sontag e a obra dela. A primeira é o trabalho de ensaística da autora. O que é um ensaio? Um ensaio é uma forma de discussão filosófica que foi inventada pelo Montaigne, um filósofo francês de 1500 e pedrada.

O ensaio é então uma tipologia textual. Ele é um texto argumentativo mas que não, necessariamente, segue uma linha de argumentação rígida, taciturna, de talvez um artigo científico. O ensaio é uma forma mais livre, ele vem da palavra tentativa, mesmo "essayer" em francês. Esse "essayer" é tentar em francês, que dá o nosso verbo ensaiar. Ele é, portanto, uma forma, algo aberta, em que no caso do Montaigne, por exemplo, ele fala dos amigos dele, ele fala do quarto dele. Daí ele diz as opiniões dele sobre a inquisição e sobre canibalismo nas Américas. Ele usa anedotas. A gente conhece muita coisa sobre a vida do Montaigne através dos ensaios. Além disso, a escrita tende a ser uma escrita bonita, uma escrita poética de uma riqueza vocabular e gramatical interessante, tem pouco a ver com a escrita cáustica e torcida de um Kant, de um Hegel. Os ensaios são normalmente muito gostosos de ler e é por isso, inclusive, que muitas vezes quando você encontra essas listas de internet assim: "100 melhores obras da Literatura", aí volte e meia colocam o Montaigne lá no meio. Tá perdido, tá perdido, mas ele aparece lá né? Perdido, mas aparece. O fato de ele estar lá comprova que a escritura dele era gostosa de ler, o suficiente para ele conquistar essa posição, em primeiro lugar. E também é uma certa forma de um sentimento de gratidão que as pessoas têm com os ensaios, porque é um livro fenomenal mesmo. Montaigne é um cara legal pra caramba, então a gente gosta. Voltando para Sontag, ela escreveu vários ensaios ao longo da vida e alguns deles são, na minha opinião, absolutamente brilhantes. Até quando você não concorda com a Sontag é difícil dizer que eles não são extremamente bem escritos e demonstram uma cultura das mais amplas, que eu, pelo menos, já vi. Ela é, por exemplo, uma das primeiras teóricas da fotografia. Aí você pensa, como é que pode um livro de 200 páginas só falando sobre fotografia, como assim? Ela ensina a bater foto, ela descreve fotos? Vai lá ler! Vai lá ler! Eu garanto para você, que em duas páginas o teu queixo já está no chão. Mais relevante do que a fotografia, para o nosso tema são dois ensaios que ela escreveu em 1978 e depois em 1989. O primeiro se chama "A Doença como Metáfora" - "Illness as Metaphor" e o segundo se chama "AIDS e as suas Metáforas" - "AIDS and its Metaphors". Esses ensaios são curtos mas são, absolutamente, brilhantes. São ensaios de crítica cultural em que a Sontag continua numa linha muito parecida com a do Foucault, analisando a história médica, história da ciência, com uma enorme verve de estudos literários e aplicando isso a sociologia e a cultura, de um modo geral.
Então mesmo que a Sontag não tivesse escrito nenhuma obra ficcional na vida, eu já falaria muito dela aqui nesse podcast, de qualquer forma, porque essas duas obras são obras seminais dentro desse campo de estudos da medicina humanística, da medicina narrativa, como eu expliquei na minha apresentação lá no primeiríssimo áudio que eu gravei. Por fim, tem um último ensaio que eu também adoro, que ela publicou um ano antes de morrer e se chama " Regarding the Pain of Others" - "Diante da Dor dos Outros" é a tradução em português. É sobre a forma como a gente se relaciona com fotos em que pessoas estão sendo torturadas ou pessoas são vítimas de guerra e etc. Então como olhar para o sofrimento dos outros? Porque toda a indústria cultural, a mídia, TV, Hollywood e, etc, tira muita grana de mostrar para a gente pessoas que estão sofrendo. Pessoas que estão sendo torturadas das formas mais variadas possíveis, que sofrem vários tipos de violência que, muitas vezes, nem é violência física, mas violências estruturais. Isso cria, portanto, um problema ético na forma como a gente se relaciona com esse tipo de produto. A Sontag problematiza e reflete a respeito disso de uma forma que é muito inteligente e, certamente, acima de tudo muito, muito relevante. Então isso era o que eu tinha para dizer sobre a Sontag ensaísta.

SONTAG ATIVISTA - 13:32 a 18:34

Há uma segunda Sontag, no entanto, ativista. A Sontag é uma dessas intelectuais que levaram a sério a frase famosa do Marx, no "A Ideologia Alemã", um livro que o Marx escreveu em 1845, mas que só foi publicado depois da morte dele. No primeiro capítulo da "A Ideologia Alemã", o Marx escreve mais ou menos um resumão assim para ajudar os leitores a digerir o primeiro capítulo e isso são as famosas Teses de Feuerbach. A mais famosa de todas é a décima primeira, que é uma frase de uma linha: "Os filósofos têm apenas interpretado o mundo de maneiras diferentes. A questão, porém, é transformá-lo." Essa frase é um grito no deserto clamando para que os intelectuais se imersam nos problemas políticos, econômicos, sociais dos seus tempos. Nesse sentido, o Marx está indo contra uma tradição que gosta de ver o intelectual e o artista como isolado em uma torre de marfim. Como se o que ele fizesse fosse uma coisa que fosse completamente abstrata e away da realidade, que não tem conexão alguma com as coisas que nós mortais fazemos aqui na Terra. Essa é justamente a visão de arte e artista que a "décadence", a arte da decadência, eu mencionei anteriormente em outros podcasts o Baudelaire, o Oscar Wilde, o Huysmans e o João do Rio, que gostam de se inserir nessa tradição. Essa é em grande parte a forma como, essa
escola, se eu puder chamar eles assim, vai olhar para realidade como um artista sendo um grande gênio isolado. O Marx não vai aceitar essa posição de isolamento. Ele vai considerar isso não como uma prova de sagacidade, de capacidade intelectual, mas sim como uma prova de alienação e descaso, talvez. A Sontag certamente leu o Seu Marx com alguma atenção. Porque ela realmente praticou essa coisa de transformar "a minha filosofia" em arte e transformar "a minha arte" em vida. "A vida imita a arte." Isso para mim é muito claro em uma anedota, que aconteceu durante o sítio de Sarajevo, durante a guerra da Bósnia. Sarajevo ficou sitiada pelo exército sérvio de 1992 a 1995, foram mais de três anos de sítio, em que a cidade estava cercada pelo exército e estava sendo bombardeada diariamente. Snippers
atiravam na população porque andavam nas ruas e esse ataque acontecia não contra uma base militar, mas contra uma população civil, em um contexto em que o exército sérvio perpetrou diversos crimes contra a humanidade. O último genocídio na Europa foi um genocídio que aconteceu durante essa guerra, em que o exército sérvio recolheu homens e meninos muçulmanos em campos de concentração e exterminou mais de 8 mil pessoas na cidade de Srebrenica, especificamente. Esse sítio de 3 anos, inclusive, é o maior sítio da história da guerra moderna. Então desde 1500 que não se via um sítio tão comprido. No meio dessa coisa toda, o que que a Sontag faz? Pega o seu aviãozinho lá em Nova York desce em Sarajevo e passa meses morando lá, justamente para chamar atenção da comunidade internacional para isso.
E enquanto ela está lá, a forma de colaborar com a vida daquela comunidade que está em pedaços e que sofre de desastres e violência, cotidianamente, a forma, então, que ela tem para contribuir, é montar uma peça de teatro. Uma peça de teatro de ninguém menos que Samuel Beckett. Ela monta o "Waiting for Godot" - "Esperando Godot", que é uma das grandes obras literárias do século 20, um texto experimental. Eu não vou nem tentar, eu não vou tentar, porque ele vai além da da minha capacidade de qualificá-lo em palavras, é um grandíssimo texto. E muitas vezes quando a gente pensa em uma grande obra literária, a gente pensa que ela é difícil, ela tem que serdifícil, tem que ter umas palavras complicadas e não é nada disso. É um texto experimental, certamente um texto inovativo, certamente extremamente criativo e, no entanto, acessível a todos. Essa é uma das provas da grandeza desse texto e da universalidade desse texto. A Sontag sabe muito bem de tudo isso e não é à toa que ela escolheu encenar "Witing for Godot", nesse contexto. O Godot é uma peça de teatro do absurdo, a gente vai falar dessa vertente teatral mais pra frente, e no duro não existe situação talvez mais absurda do que está acontecendo em Sarajevo, naquele contexto histórico. Então aqui o que a Sontag está mostrando é uma coisa que também é um dos motivadores do meu podcast.
A Literatura tem algo para oferecer em momentos de crise, em momentos de medo, em momentos de angústia, que a gente talvez não encontre em outros lugares. A Literatura não tem as respostas, a Literatura tem as perguntas e talvez isso ajude a gente a lidar com a situação que a gente está vivendo.

ARISTÓTELES E A CATARSE – 18:35 a 22:25

A Literatura pode funcionar, portanto, como uma forma de terapia e essa é uma ideia que já é vinculada em teoria literária desde a poética de Aristóteles. O Aristóteles tenta explicar por que motivo as pessoas tomam esse comportamento estranho. Elas vão até o teatro, elas assistem peças sobre coisas muito tristes e aí elas choram, o que indica que elas estão sofrendo. Por que que elas fazem isso? Elas são masoquistas? (Risos) O Aristóteles sente a necessidade de justificar porque que as pessoas buscam, ativamente, o sofrimento quando se fala de arte, sendo que em várias outras esferas da vida ninguém vai buscar tomar uma paulada. - Quer dizer, tem gosto para tudo nesse mundo, né... Mas vocês entenderam o que eu quero dizer. - E a resolução do Aristóteles para esse problema é cunhar um termo, que a gente usa até hoje, que em grego significava "limpeza", mas a gente prefere citar do grego porque daí fica mais culto né? Catarse em português, que vem desse termo grego que é "kátharsis", que é isso, limpeza, purificação. - O dia da catarse aqui em casa, por exemplo, é na quinta-feira, então eu já deixei até o aspirador para fora já. 
A ideia do Aristóteles, no empregar o termo "catarse" (a purificação), significa que as pessoas estão assistindo o sofrimento dos outros e a partir disso elas conseguem limpar os próprios sofrimentos. É uma função de reset. Elas esquecem de si próprias durante o período em que dura aquela peça para se identificar com o personagem principal e sofrer com o que ele sofre. Isso causa um sentimento bom que traz coisas boas as pessoas, e permite que elas olhem com um viés diferente para os problemas que levaram elas a chorar, em primeiro lugar. Isso é exatamente o que está por trás aqui da ação da Sontag, enquanto ativista. E é por isso que sair de Nova York para ir montar uma peça em uma cidade sitiada pode parecer uma coisa boba e talvez inútil para muitos, mas, na verdade, eu argumentaria que é crucial. É crucial como poucas coisas o são, em contextos como esses. 
Se esse não fosse o caso o "Ensaio sobre a Cegueira", do Saramago ou "A Peste", do Camus, não teriam voltado a estar entre os livros mais vendidos. O fato de que eles estejam lá, como mencionei na minha apresentação, indica que as pessoas têm essa relação especial com a Literatura. Agora sim, finalmente, nós podemos falar do terceiro campo, que é o campo ficcional, a produção artística da Sontag. A gente vai falar disso usando uma história pequena, um pequeno conto que se chama "Assim Vivemos Agora", traduzido para o português pelo Caio Fernando Abreu, que é um outro escritor de relevância e que escreveu muito sobre a AIDS. A gente vai falar dele mais pra frente aqui também. É um conto de 1986 e ele não é um conto cômico, ao contrário do conto do Verga que era muito divertido, pelo menos na minha opinião, o texto da Sontag é um texto super sério, na verdade. É um texto, algo experimental. O que é que isso quer dizer? O texto é um texto fragmentário, ele recria uma série de vozes. O que acontece é que você tem um personagem que está hospitalizado e que nunca é identificado. Você não sabe qual é o nome desse personagem e ele nunca abre a boca. Esse personagem no hospital é visitado por, literalmente, uma dezena de pessoas. Muitas, muitas pessoas vêm visitar.
Tudo que essas pessoas falam a respeito desse personagem é apresentado em pequenos fragmentos, às vezes em uma linha você tem duas informações de duas pessoas diferentes. Então existe uma confusão enorme de vozes e de "disse que me disse" e de informações cruzadas que acabam te dando uma perspectiva muito interessante do que está acontecendo ali. Um mosaico. Muito pouca coisa é dita, efetivamente, muita coisa é aludida e eu espero que isso já fique mais claro.

LITERATURA, CRÍTICA TEMÁTICA E COMO O LITERATURA VIRAL É ESTRUTURADO – 22:26 a 27:01

Mas antes de entrar no texto eu tenho que fazer um último comentário preliminar que é sobre a forma como eu escolho os textos que eu vou tratar. Vocês já perceberam que a minha forma de organizar a literatura é algo diferente do que normalmente é feito em aulas de literatura. Então a forma mais tradicional, de estudar literatura, envolve fazê-lo cronologicamente e respeitando tradições nacionais. Então a coisa mais comum do mundo é estudar literatura brasileira na escola de 1.500 até os dias de hoje. Essa é uma perspectiva que tem seus prós e seus contras, como tudo na vida, até o Corona. Uma outra perspectiva bastante adotada é seguir estruturas, seguir tipologias textuais. Então eu vou estudar poesia épica de Homero até Camões, por exemplo.
Esse método é particularmente usado, por exemplo, para estudar textos teatrais. É bem comum a gente ver cursos de história do teatro, por exemplo, em que se fale de, sei lá, Shakespeare, depois Racine, Molière, sei lá, expressionismo alemão e etc. Assim como a vertente anterior tem os seus prós e os contras. E, enquanto a vertente cronológica bastante Imbuída de biografismo e que respeita normalmente tradições nacionais é a mais praticada no Ensino Médio, essa forma de organização mais estrutural é bastante praticada nas Universidades, juntamente com todos os outros métodos, na realidade. Todos eles, em alguma medida, encontram espaço dentro da Universidade.
A Universidade é um ambiente polifônico. O que eu proponho aqui, no entanto, é organizar através de um eixo temático. Então eu uso, especificamente, epidemias e, mais amplamente, doenças. Eu uso elas  como temas literários e fico saltitando para cá e para lá ao redor desse tema. Então nós começamos, por exemplo, com o João do Rio, no Brasil em 1910. Mas dois
 episódios depois nós estávamos nos Estados Unidos em 1840 e pedrada. A gente continua nos EUA hoje, mas em 1980 e poucos. A gente pulou 150 anos para frente. Isso vai continuar acontecendo e na verdade vai piorar, porque não vai demorar muito para eu aparecer com textos da Grécia antiga aqui e nem para começar a falar de Literatura Contemporânea. Como eu disse no meu áudio de apresentação, eu vim para confundir. 
Mas além desse eixo temático eu também tenho privilegiado, especialmente nesse início, textos que são curtos e que estão disponíveis em tradução. Porque convenhamos que não adianta nada eu vir aqui discutir um texto da literatura italiana, que eu li em italiano e não está traduzido para o português. Essa questão do acesso aos textos através de tradução é um dos fatores que norteiam a minha escolha. Finalmente, um outro fator também é o da diversidade. A Literatura é um reflexo do que a sociedade acredita. Mas ela também forma o que a sociedade acredita, então existe um diálogo em modo perpétuo entre o resultado que a sociedade produz e o que esse resultado responde para a sociedade. E, portanto, se o mundo é heterogêneo, se o mundo é caótico, se o mundo é variado e colorido, a Literatura tem que espelhar isso. 
Existiram, historicamente, forças que impulsionaram das formas mais variadas, às vezes intencionalmente, às vezes indiretamente, às vezes sem ninguém perceber e sem ninguém está por trás o volante, mas que trabalharam em prol de "silenciar" certos grupos. Esses grupos, às vezes, são mais da metade da humanidade. A mulherada ao longo de muito da história literária não foi levada a sério. E tem sido um trabalho constante da crítica literária feminista desde os anos 60, 70, 80, de ir para os arquivos e encontrar essas obras literárias escritas por mulheres e que às vezes tem o valor artístico enorme, mas que não receberam reconhecimento na época e de revalorizar muito dessas obras. 
No meu caso, até agora, só tinha cueca nesse Podcast aqui né? Meu deus do céu! Não aguentava mais ver bigode na minha frente. Portanto, finalmente agora a gente passa a tratar de uma escritora e algo que vai acontecer de vez em quando. Quando for pertinente, eu quero falar da George Eliot, por exemplo. Eu quero falar da Mary Shelley, eu quero falar da Margaret Atwood. Mas duas dessas escritoras, por exemplo, tratam de textos os pós-apocalípticos, que é uma temática que eu pretendo desenvolver mais no futuro. Então talvez demore um pouco, mas não se preocupe meu caro ouvinte nós chegaremos lá. Agora sim, finalmente chega! Porque hoje eu peguei pesado. Meu Deus do céu! Comecei com Homero, falei até de literatura da República Tcheca, passei por Marx, falei a palavra diversidade e feminismo. Meu Deus do céu!  Certeza que teve gente que fez a benção aí enquanto me ouvia.(Risos)


ANÁLISE DO CONTO ASSIM VIVEMOS AGORA – 27:02 a 41:16

Agora sim, "The way we live now", 1986, bora para a Sontag. Uma das primeiras coisas que devem ser ditas sobre o conto é que o título estabelece uma relação de intertextualidade com o romance de Anthony Trollope, publicado em 1875, ou seja, cerca de 110 anos antes. O romance se chama "The way we live now". Então a Sontag está usando o mesmo título e isso estabelece um link com aquele texto anterior, assim como o Poe, a gente viu, estabelecia links com as obras do Shakespeare e do Boccaccio e por aí vai. A intertextualidade é uma ferramenta muito importante para a escrita da literatura. E ela é usada para criar várias nuances de significado, ela pode parecer, num primeiro momento, uma mera brincadeira intelectual de alto referenciamento que não chega a lugar nenhum e que busca premiar os CDF's da literatura. Mas não é bem por aí. Ela pode até ser um pouco assim "uma piada interna", mas a intertextualidade acaba servindo para estabelecer uma rede muito grande para amarrar textos e para ajudar a gente na interpretação desses textos. Eu não vou me deter agora, especificamente, porque a gente vai ter muitas oportunidades de discutir intertextualidade, porque as epidemias são um tema que é particularmente intertextual. Existe uma tradição de escritura sobre epidemias que já vem desde a Grécia antiga, do Édipo Rei, do Homero, do Thucydides... O que interessa para gente hoje é que esse título "Como vivemos agora" implica uma mudança e quando as pessoas falam desse tipo de mudança: Ah agora a gente vive assim ó! Imediatamente está implícito nisso uma certa...é uma crítica, certamente. Parece o discurso de um velho ranzinza, né? Esse é exatamente a forma como Trollope trata o assunto no romance dele. É uma sociedade inglesa que, na opinião dele, ele passou anos na Austrália e quando ele voltou em 1.872 a cidade estava toda a degenerada e desonesta e etc. Então ele escreve um romance satírico que ironiza e tira sarro dessa coisa toda. A gente acompanha uma fraude, basicamente, especulação, personagens malévolos, personagens hipócritas e tal. Então no usar esse título a Sontag já vai estar atraindo essa ideia de derrocada, de urgência, de uma crise e de uma situação que precisa ser gerenciada. No entanto, essa impressão é uma impressão, algo ilusória, porque o tom, é um tom bastante positivo, na verdade, e que se ambienta durante a crise da AIDS, que foi a grande pandemia do final do século 20. Apareceu em meados dos anos 70, que também era uma doença nova, que também é um vírus, que também é uma zoonose e que é um problema até hoje. As terapias, o tratamento da AIDS fizeram enorme progresso, mas ainda assim hoje são 37.9 milhões de pessoas vivendo com HIV, segundo os dados de 2018 da Organização Mundial da Saúde, e nesse ano morreram 770 mil pessoas em consequência da ação do vírus. Eu não vou tratar especificamente de AIDS aqui, porque a gente vai ter outras oportunidades e ela é uma pandemia extremamente importante, porque ela veio para ressignificar muitas das tendências culturais do século 20. Ela é, de certa forma, um paradigma do que está acontecendo agora também. A reação ao Corona é algo parecido, mas também, claramente, algo diferente da pandemia de AIDS, porque ela tem as suas especificidades. Mas os paralelos são muito interessantes, por que num primeiro momento não se sabia o que causava a doença, não se sabia como se podia prevenir a doença. Depois você sabia como se podia prevenir, mas não existia nada que a gente pudesse fazer a respeito. Algo muito parecido com o que acontece hoje com a situação do Corona. A gente sabe quais são os grupos de risco, a gente sabe mais ou menos a prevenção, as atitudes que devem ser tomadas, mas ainda assim não há tanto que possa ser feito.
E o que acontece no conto? Como eu mencionei anteriormente, ele é fragmentar, então a gente acompanha todas as vozes dessas personagens que estão visitando um amigo doente no hospital. Uma coisa que é necessário salientar e que é muito interessante do conto, é que ele é publicado ao longo dos anos 80, quando a pandemia era uma realidade e estava em expansão, inclusive. Mas o que é interessante aqui, como leitor da Sontag identifica imediatamente o que está acontecendo, ela nunca menciona o nome da doença, não aparece o nome do vírus, não aparece. O que aparecem são pequenos detalhes marginais que permitem a gente identificar o que está acontecendo. Como eu mencionei anteriormente, esses detalhes marginais nos são entregues através de uma série de fragmentos. Eu não vou ler muitos trechos por causa dessa fragmentariedade do texto, mas é importante dizer que, vejam como é interessante que a técnica narrativa replica um cenário que está acontecendo em momentos de pandemia. Você tem dezenas, centenas, milhares de vozes e opiniões circulando. Justamente porque não existe ainda uma verdade científica estabelecida, então você tem uma enorme heterogeneidade. Ao adotar essa forma de escrita fragmentária, a Sontag vai replicar, na superfície do texto, todas essas vozes e opiniões. Então esse zoológico que está acontecendo durante as visitas ao hospital, também aparece na superfície do texto de forma que tu pode experimentarem uma certa, em uma certa medida, essa confusão de vozes. O texto quer soar dessa forma: "No início ele só estava perdendo um pouco de peso ele se sentiu só um pouco doente disse Max para Helen e ele não marcou uma consulta com o doutor de acordo com Greg porque ele estava tentando continuar trabalhando mais ou menos no mesmo ritmo mas ele sim parou de fumar a Tânia disse o que sugere que ele estava assustado mas também que ele queria mais do que ele conseguia ser saudável ou mais saudável ou talvez só ganhar uns quilos disse Orson porque pelo que ele disse Tânia continuou que ele esperava poder continuar escalando as paredes não é isso o que as pessoas dizem e descobriu para sua surpresa que ele não sentiu nenhuma falta do cigarro e adorou a sensação de que os seus pulmões fossem livres de dor pela primeira vez em ano." Esse é o final da primeira frase, então vejam como ela é confusa e como ela tem um apelo à oralidade. Existem pequenos detalhes assim da coloquialidade desse texto, que demonstram esse interesse de ser quase que uma fotografia não posada, em que as pessoas não saibam que elas estão sendo fotografadas. É como se o conto quisesse mostrar para a gente um pequeno trecho da vida de alguma pessoa, mas um pouco aceleradinho assim, sabe? Conforme você vai lendo essa confusão, as coisas começam a fazer sentido. Você começa a entender que o paciente, a pessoa que está doente, ele é um homem, mas ele nunca é identificado.

E a doença nunca é mencionada, então isso já é muito interessante. Ele nunca tem direito de palavra, então ele é o tema de todas as conversas, o conto inteiro fala dele, mas você nunca tem acesso a ele. Você escuta falar dele por todas as pessoas e você não tem nem muita noção de quantas pessoas são, porque são tantos nomes e eles se repetem, eles concordam ou discordam. E desses fragmentos você começa a perceber que essa é uma pessoa de relevância no cenário cultural da cidade, mas isso é vago e é importante que seja vago. Aí as informações que você sabe sobre esse indivíduo é que ele tinha essa relevância cultural, mas que depois ele já tinha medo de ficar doente, mas ele ainda não tinha confirmação. Então, provavelmente, você está falando desse cenário da comunidade homossexual de Nova York, porque ele sabe que ele teve relações com pessoas que desenvolveram a doença e que, portanto, ele, talvez, mais cedo ou mais tarde, também desenvolveria. Aí você descobre que esse personagem, efetivamente, havia contraído a doença, emagreceu muito e foi internado no hospital, depois foi mandado para casa, depois foi internado novamente... E se criou nos amigos dele o hábito de visitá-lo assiduamente, praticamente, sempre tem alguém lá com ele e as pessoas mencionam reiteradamente o fato de que agora parece que todo mundo está em contato com todo mundo o tempo inteiro, essa é uma frase, inclusive, que a gente encontra no conto. E que através da convalescência desse personagem, desse amigo em comum, esse pequeno grupo venceu desavenças e conseguiu encontrar apoio um no outro, e venceram a inveja e se apoiam mutuamente para vencer o medo.

Alguns desses personagens também vivem com o terror de, eventualmente, desenvolver a doença, porque ocupam a mesma posição que o personagem principal ocupava anteriormente. De vez em quando você escuta comentários sobre como esse personagem já era um cara legal, mas agora, ele virou uma pessoa tão gentil, uma pessoa tão empática. Então você começa a desenvolver uma visão positiva da doença, uma visão em que a doença ofereceu para aquele personagem em questão, a oportunidade de crescimento. Esse crescimento é apreciado pelo próprio personagem, alguém menciona em um momento, por exemplo, que não obstante todo sofrimento e a angústia existe algo de bonito na doença. Bonito porque ela possibilitava a oportunidade de crescimento para esse personagem específico, e de união para todo esse grupo de amigos. Ele menciona para um dos amigos, por exemplo, que agora ele se sente uma pessoa melhor e que se ele se curasse ele teria a possibilidade de viver mais profundamente e mais em contato com o que ele é de verdade, com as coisas que realmente importam. Se interessaria menos com que os outros pensam, por exemplo. O que não deixa de ser irônico, porque a gente só sabe da vida dele, justamente, através do que os outros pensam e dizem.

E aí, pouquinho a pouquinho, se forma no conto esse quebra-cabeça de como cada uma das personagens pode contribuir. Eles discutem, por exemplo, quais seriam os melhores presentes. Porque mandaram tantas flores, mas tantas flores pro paciente que não há mais onde colocá-las no quarto, na verdade, e as enfermeiras pegam algumas para levar para os outros pacientes que não recebem flores. A gente vai falar sobre as flores, especificamente, no outro episódio, porque elas têm uma tradição dentro da medicina que é interessantíssima. Vocês já viram que eu adoro prometer coisa para o futuro né? (Risos) Então eles discutem, por exemplo, se é saudável eles darem chocolates de presente. Eles naturalmente preenchem funções diferentes. O amigo que conta histórias mais engraçadas e não fala tanto a respeito de doença. O amigo que conversa com os médicos e acompanha, de muito perto, o caso e os exames, etc. A amiga que dissemina as novidades sobre paciente para os amigos que não puderam visitar. Então existe toda uma rede de contatos em que as pessoas naturalmente começam a desempenhar funções que demonstram carinho, preocupação, empatia e que gera união. Então, é claro que essa situação é uma situação terrível, é uma situação em que o personagem está muito doente e a gente fica com a pequena impressão de que ele está, inclusive, em estado terminal. Mas não obstante esse fato, a última frase do conto leva a gente a pensar que talvez exista a possibilidade de que ele se recupere.

A última frase é: "Ele ainda está vivo.". O que demonstra aqui, embora a luta tenha sido exaustiva, ele, provavelmente, vai sucumbir no futuro. Mas o presente é um presente de dor física, mas de crescimento emocional, intelectual e de apoio social. Essa conclusão, algo positivo desse conto, é intensificada, na minha opinião, através da intertextualidade do título, na verdade. Eu falei que ele serve para muitas coisas. Uma das coisas que é possível a gente argumentar aqui é que o final vai ser modulado também paralelo ao romance do Trollope. Embora o romance do Trollope comece muito mal, ele tem um final feliz, ele tem um happy ending. Então no conto da Sontag a gente pega a coisa já aos trancos e barrancos. Ela já está começada, assim como na do João do Rio, assim como na do Verga. Então a gente começa a ver uma tendência da escritura sobre a epidemia de sempre começar as coisas no meio, para aumentar o drama. Então ela começa de repente, mas ela não leva a gente até o final. Ela aponta a direção, mas de repente, o texto vai se desfazendo e simplesmente pára e se cria o que a gente pode chamar de um vácuo literário, um vazio que é um vazio intencional, que a autora colocou lá de propósito, para que você possa preencher esse vazio sozinho ou sozinha. Essa é exatamente a ideia por trás do Dom Casmurro. - Aí meu deus, a Capitu traiu ou não traiu! Olha lá. O cidadão, esse não é o ponto!
O ponto é que o Bentinho acha que ela traiu, é isso que importa cara. - E esse vazio literário, do não ter a resolução do problema, está lá de propósito, porque o Machado quer manter a pergunta viva. Não existe resposta. O que importa é que o Bentinho acha que sim, e é isso que é relevante. Vazio literário, está aí uma coisa que merece atenção. Porque, às vezes, uma coisa que parece super boba e que você acha que o autor esqueceu, ele esqueceu de mencionar aquele negócio lá, na verdade acaba se revelando como uma omissão importantíssima, importantíssima e fundamental para o texto. Então é sua missão estar aqui por algum motivo e eu argumento que esse motivo é para que a gente possa ter uma visão positiva. Para que a gente não tenha que, necessariamente, terminar com a morte e, portanto, com o luto.
Além disso, a pandemia do HIV não terminou até hoje e, portanto, é justo que uma pandemia que está em aberto seja representada em literatura com um conto que termina em aberto. Assim, a Sontag não finge ter respostas que ela não tem, mas ela ajuda a gente a refletir sobre o problema.

PRÓXIMO EPISÓDIO: A POLICITEMIA DE DONA LINDOCA DE MONTEIRO LOBATO – 41:17 a 41:49

E é isso por hoje, senhoras e senhores. No próximo episódio nós continuamos nessa mesma linha. Nós vamos voltar para o Brasil e discutir um texto de Monteiro Lobato: " A Policitemia de Dona Lindoca" e eu espero que você goste, porque eu tive que gravar umas dez vezes para acertar esse diacho de palavra: Policitemia. Por hoje é isso, senhoras e senhores, um abraço.
 

 

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