#3 Só tenha medo do medo! "A Peste" do João de Rio
Transcrição

RECAPITULAÇÃO DOS EPISÓDIOS ANTERIORES: ÖTZI, TEORIA HIPOCRÁTICA E TEORIA DOS MIASMAS – de 00:00 até 03:35

 

Olá, minha querida e meu querido! Bem-vindo ao Literatura Viral, um podcast em que eu discuto literatura e epidemias. Meu nome é Áureo Guérios e eu sou doutorando em Literatura Comparada.

Nos últimos dois episódios, eu falei bastante sobre a história da Medicina, com algumas pinceladas de literatura. Hoje, nós falaremos sobre “A Peste”, mas não aquela do Camus: “A Peste” do João do Rio.

Até agora, vocês me ouviram falar de um homem da Idade do Bronze que, em torno de 3400 antes da Era Comum, caiu numa poça enquanto carregava uma bolsa cheia de cogumelos. Cogumelos que ele usava não para ficar sob o efeito de poderosos psicotrópicos, mas sim para matar as lombrigas. Em seguida, falei sobre a teoria hipocrática, segundo a qual a saúde é o resultado do equilíbrio de quatro humores no corpo e a doença é o resultado do desequilíbrio desses humores. Então, se você acordou de mau humor hoje, cuidado! 

No segundo episódio, eu falei sobre como essa teoria que explica a saúde e a doença tem uma dificuldade, que é explicar como esse suposto desequilíbrio, que se manifesta através de febre, vômito e etc., pode ser contagioso. A tentativa de resolver esse problema deu origem à teoria dos miasmas. Os miasmas seriam putrefações, hálitos, exalações, normalmente de pântanos, mas também de carcaças, de cadáveres... Tanto a ideia de fumaça quanto a ideia de poluição e de fedor estão inseridas na ideia do que eles chamavam de miasma. Esses miasmas podem gerar o desequilíbrio que, por sua vez, gera doença. Dessa forma, é possível explicar tanto o contágio quanto a doença de um indivíduo.

Mas percebam que também aqui há um pequeno problema porque se a doença é causada por fumaça fétida que exala do meio ambiente, dos pântanos, dos mangues..., então todas as populações e todas as pessoas que vivem próximo a esses miasmas e respiram esses miasmas deveriam ficar doentes, porque o miasma funcionaria como uma forma de envenenamento. Por exemplo, se eu vou ao churrasco de domingo da minha família e a tia Joana fez uma salada que ficou fora da geladeira durante horas e alguma substância química se desenvolveu ali, talvez por ação de alguma bactéria, essa substância química vai provavelmente causar infecção intestinal em todo mundo e não em um indivíduo ou dois. Todo mundo em alguma medida vai sofrer com aquilo. Logo, os miasmas deveriam funcionar da mesma forma, mas esse não é o caso. Nem todo mundo que mora perto do pântano tem malária. Então como é que a gente explica isso dentro da teoria dos miasmas?

A forma usada para explicar isso é falar em susceptibilidade. Há diversas coisas que fazem com que você seja mais suscetível a desenvolver o desequilíbrio que, segundo a teoria hipocrática, causa doenças. Você é mais sensível aos miasmas. E existem vários elementos que podem criar essa maior sensibilidade. Um dos principais é o medo.

 

A RELAÇÃO ENTRE O MEDO E AS DOENÇAS – de 03:36 até 09:25

Até muito recentemente, até o início do século XX, o medo era um fator essencial dentro do pensar médico. Ter medo de uma doença - olha só, olha só para os tempos do Corona! - ter medo de uma doença, para a medicina de até 1800, quer dizer que você está mais suscetível a desenvolver essa doença.

Eu vou trabalhar nesse episódio e nos episódios vindouros com uma distinção entre medo e angústia. Quando você sabe qual é a coisa que te causa medo, eu vou chamar isso de medo mesmo. Quando você simplesmente tem medo, mas não sabe o motivo, eu vou chamar isso de angústia.  Se fulano tem medo de morcegos, isso efetivamente é medo.  Agora, se ele sai um dia na rua de noite e ele não sabe exatamente do que ele está com medo, ele tem um sentimento estranho e ele está com medo, mas você pergunta "por quê?", "eu não sei dizer". Esse "não sei dizer", eu vou chamar de angústia.

Por que é importante fazer essa distinção? Porque claramente no caso como hoje, com o Corona, a gente não tem muita noção de contra o quê  a gente está "lutando", entre mil aspas. O inimigo aqui é um inimigo invisível. E esse adversário, a gente só tem conhecimento indireto dele. Uma das coisas assustadoras a respeito do Corona é que tem tantas coisas que a gente não sabe a respeito dele. Vai além do fato de não ter medicação e de não ter vacina, mas o fato de que ele é um desconhecido. Quanto mais o tempo passa, essa coisa se atenua. A gente já sabe muito mais coisas agora do que há tempos atrás, quando ele apareceu na China. Então, a nossa angústia, pouquinho a pouquinho, vai se transformando em medo.

Essa relação entre medo e angústia está sempre ligada a uma ideia de perigo, de ameaça, tanto que a gente pode verificar isso na própria etimologia das palavras. Em português, a palavra "medo" vem do latim "metus", que é medo, receio...  Agora, uma etimologia bastante interessante é do inglês "fear", porque esse "fear" vem de uma origem germânica da palavra "perigo", tanto que até hoje em alemão "Gefahr" é perigo. Vejam, perdeu o "Ge" e ficou o "fahr" - virou "fear". A raiz está ligada. O perigo gera medo.  No entanto, em alemão a palavra para medo é "Angst". Então, é angústia.  Veja, "Angst" é a raiz de angústia.  Essas ideias estão todas entrelaçadas. Então, se você se sente em perigo  e você sabe o que está te ameaçando,  você tem medo. Agora, quando você teme uma coisa abstrata à qual você não tem acesso, então o que você sente é angústia, na minha distinção.

Mas, como tudo na vida, o medo pode ter aspectos positivos e negativos. E eles não são necessariamente contraditórios. Sim, o medo pode virar histeria e levar à violência, à xenofobia e ao confronto. Ele pode, sim, levar à dissolução de uma sociedade. Agora, o medo também pode levar à compaixão e, no caso de agora, especialmente, à prevenção. A gente pode argumentar que o medo, agora, funciona como uma coisa boa,  como uma estratégia de prevenção. Eu estou gravando esse podcast em 18 de março e o número de casos confirmados nesse momento é um pouco mais de 206.000,  um pouco mais de 8 mil mortes. Esses números são números grandes. 200 mil pessoas é gente pra caramba. Só que quando a gente dilui esses números na população do mundo, que hoje é de 7.8 bilhões, esses números se diluem. 8 mil mortes em 7.8 bilhões é muito pouco. Tem doenças que são muito mais expressivas. Mas esse não é o ponto da prevenção e das ações que estão sendo tomadas pelos governos agora. As ações que estão sendo tomadas visam um futuro, porque a doença está crescendo exponencialmente. Então, a questão não é evitar a doença no presente, mas evitar ela no futuro.

De uma certa forma, o medo que se instaura na sociedade, se ele consegue evitar que as pessoas continuem tendo seus contatos sociais normalmente, ele consegue, de uma certa forma, frear o caminhar da doença e, portanto, ele consegue fazer o que em epidemiologia se chama "flattening the curve":  ele consegue achatar a curva. Ao invés de a gente ter um pico em que quase toda a população fica doente ao mesmo tempo, a gente teria, ao invés de uma montanha, uma morreba, como a gente diz  aqui em Floripa, meu querido! Isso não quer dizer necessariamente que haja menos casos, embora normalmente sim. Mas isso significa que os casos são mais espalhados ao longo do tempo e, portanto, os sistemas de saúde têm uma chance de lidar com eles um pouco melhor. Isso se reflete na taxa de mortalidade e na qualidade da recuperação dos pacientes.

 

A VARÍOLA NO SÉCULO XVIII – de 09:28 até 12:22

 

O que eu vou  sugerir para você agora é um pequeno experimento mental. A gente vai tentar voltar no tempo 200 anos e se colocar na cabeça de uma pessoa que não viu a revolução bacteriana. Porque foi a revolução bacteriana que permitiu que a gente desenvolvesse vacinas, identificasse os vírus, descobrisse os antibióticos e, inclusive, erradicasse doenças. Muito daquilo que a gente dá de barato hoje em dia, a gente acha que é o normal, na verdade, são coisas muito recentes e que, ao longo de toda a história humana, eram desconhecidas: os próprios antibióticos. Os trabalhos do Fleming são de 1928 e a produção efetiva de antibióticos só começa durante a Segunda Guerra. O desenvolvimento dos antibióticos é um dos grandes triunfos da medicina moderna (mas que pode azedar também: com o desenvolvimento das bactérias resistentes a antibióticos, essa vitória pode acabar virando e  degringolando em um 7x1, em que as bactérias são a Alemanha e nós somos o Brasil). Hoje a gente vai tentar imaginar como uma pessoa em meados de 1700 veria a varíola. 

A varíola é uma doença que também é causada por um vírus. Ela é uma doença que tem uma taxa de letalidade de 30%. Em 1700, a pessoa que pegasse varíola tinha 2 chances de sobreviver para 1 chance de morte. Não existem remédios eficazes contra varíola, não existe vacinação ainda. Os sintomas da varíola se manifestam na pele. Ela causa pústulas às vezes na totalidade do corpo. O paciente sofre muito porque ele  não consegue comer, porque essas pústulas, essas feridas também aparecem na garganta e no interno da boca, então é muito doído comer, às vezes até tomar água. Existe uma chance grande de que se você se recuperar, você fique cego.  E a varíola deixa marcas. As feridas cicatrizam e muitas vezes podem deixar  a pessoa desfigurada. A varíola era uma doença muito temida por causa da possibilidade de morte, mas também temida pelos seus sintomas, que são  sofríveis mesmo, e também pelas suas consequências. Também não há remédio no século XVIII, não há prevenção no século XVIII. Então você tem as mãos atadas. Não há nada que o nosso amigo do século XVIII possa fazer a respeito, nem para se prevenir e nem para se tratar, depois que ele pega a varíola. A única notícia boa disso tudo é que uma vez que você pegou, você não vai pegar de novo. Ela dá imunidade para vida,  mas convenhamos que esse não é o melhor  prêmio de consolação da história, né!  Isso tudo vai ser relevante para o nosso conto de hoje.

 

ANÁLISE DO CONTO “A PESTE”, DE JOÃO DO RIO – de 12:24 até 25:23

Leia o conto A Peste aqui.

 

Esse conto está em um livro que se chama Dentro da noite, que é publicado em 1910. O João do Rio escrevia  justamente nessa virada de século. Ele se insere numa tradição que é a da decadência. No Brasil, a gente normalmente se refere à decadência como simbolismo. E ela é uma tradição que se origina com o Baudelaire, o Verlaine, o Rimbaud,  esses poetas simbolistas mais famosos, mas que depois se desenvolve através da prosa, chegando em autores como Huysmans, na França,  ou o próprio Oscar Wilde, na Inglaterra. Isso é relevante para essa obra, porque ela é um livro de terror,  ela é meio que feita para causar medo. Isso é relevante porque a literatura brasileira nunca se interessou muito em explorar esses elementos, enquanto que em outras tradições, como na literatura inglesa, eles têm o "Gothic Novel", o romance gótico, e eles buscam essas histórias de fantasmas. Então, João do Rio... um aplausozinho, porque no mínimo é inovativo!

Vamos para o nosso conto. 

Ele já começa de supetão, no meio de uma frase, inclusive. Começa com "e": "E de súbito o indizível pavor  prega-me ao banco". Essa é a primeira frase.  Vejam que a ênfase imediatamente já recai sobre medo e, basicamente, o que a gente vai ver nesse conto é como o personagem, no início, tá de boa, não tem medo de nada, é temerário, mas, conforme ele vai perdendo as estribeiras e vai aprendendo a ter medo de uma certa forma, ele pega a doença. A doença aqui, por mais que o conto se chame A Peste, a doença é a varíola. Então, ele estabeleceu na primeira frase que ele está cagando de medo (esse é o termo que a teoria literária usa!). Na segunda frase, imediatamente, ele passa a falar do quê? Do céu, ou seja, dos miasmas.

 

É um dia brumosamente invernal. O azul do céu parece tecido de filamentos de brumas. O sol como que desabrocha dentre as brumas, o ar,  um pouco úmido e um pouco cortante, congela as mãos, tonifica a vegetação, e o mar, que se vê à distância no recanto de lodo, tem reflexos espelhentos de grandes escaras de chagas, de óleo escorrido de feridas à superfície quase imóvel.

 

Há duas coisas a serem ditas: a primeira é essa ênfase nas nuvens. "Bruma" é uma palavra bonita para dizer nuvem, neblina. Então vejam: "é um dia brumososamente invernal".  A próxima frase fala do céu.  "O azul do céu parece tecido de filamentos de brumas" - nuvens. "O sol desabrocha por entre as nuvens". A gente tem a palavra "nuvens" três vezes em 1,5 linha. A segunda coisa a ser dita sobre essa sequência de frases é que em seguida ele passa para o mar. Quando ele tem que descrever o mar, ele, de propósito, vai usar um vocabulário, no mínimo, peculiar, porque a última coisa que eu penso quando eu olho para o mar é "em grandes escaras de chagas, de óleo escorrido de feridas". Isso, certamente  eu te garanto que eu não penso! O senhor João do Rio está forçando um pouco a mão aqui. E por que ele está forçando a mão? Porque ele que já quer indiretamente predispor a gente a esse nojinho que ele vai querer causar mais para frente. Quando chega lá na metade do conto, você já está meio assim fazendo careta, mas você nem percebe muito bem o porquê. E um dos motivos é esse: porque ele usa essas palavras que vêm de um campo semântico que é o campo do ameaçador, do nojo, do escatológico.

O parágrafo seguinte começa com: "Um mês antes, ria dessa epidemia". Ele estabeleceu que ele tem medo e estabeleceu, indiretamente,  a presença de miasmas. O público leitor dele é familiar com a ideia dos miasmas e identifica sozinho esse tipo de referência. É a gente que precisa ouvir um podcast para entender isso aqui! No segundo parágrafo, ele volta no tempo para dizer que antes ele não tinha medo, que ele estava rindo da epidemia. Então vejam que o que ele vai contar para a gente agora, na verdade, é como ele desenvolveu essa doença. E como é que isso acontece? Um dos melhores amigos dele está morrendo de medo porque ele é um cara bonito e tem muito medo de ficar marcado por causa da varíola, tanto que, em um momento, o nosso herói, que se chama Luciano Torres  (a gente vai descobrir isso lá no finalzinho), diz para esse amigo: "Mas criatura, não tenhas medo. Andamos todo o dia pelas ruas, vamos aos teatros. Qual varíola! Vê como a gente toda ri e goza. Deixa de preocupações."  Ele está realmente rindo da epidemia.  O que acontece é que o Luciano recebe uma nota de que o amigo está internado e ele resolve ir visitar. Ele pega um tram.

(Essa também é uma das coisas interessantes desse conto. Ele usa de propósito palavras do inglês ou palavras do francês para dar esse tom de cosmopolitismo da capital, dessa capital colonial que está tentando se modernizar, o Rio. Veja que 1910 são 6 anos depois da Revolta da Vacina, que está ligada à reestruturação do Rio, com uma reurbanização de Pereira Passos. Por isso, às vezes até com um tom ligeiramente sardônico, ele usa as palavras como "la saison",  ele pega o "tramway". Ele fica brincando e flertando com essas palavras do francês e do inglês. Para o nosso mundo, que é tão cosmopolita e globalizado hoje, 110 anos depois,  essa tentativa de cosmopolitismo,  na real, demonstra até o provincialismo da capital brasileira de 1910. Mas é bonitinho, dá vontade de dar uns parabéns!)

Ele entra no tram e vai até o hospital.  No percurso, ele começa a se referir a ter medo de "ver descer um monstro varioloso, desfeito em pus, seguindo para a cova". Ele começa a ter esse temor e ele realmente chama isso de um pavor. Quando ele chega primeiro numa clínica para pedir autorização do médico para ver o amigo, a sala de recepção está cheia de pessoas desesperadas para ver os parentes e a situação é uma situação de colapso do sistema de saúde, porque eles não têm mais leitos, isso é dito no conto, e as pessoas perdem a sua individualidade. Elas viram números. Alguém pergunta pelo 425, uma senhora quer saber do próprio filho que é o 390, então nem o nome dele é dito. Mas essa ideia também reflete muito uma novidade do século XIX, que são os hospitais, a popularização do hospitais, porque até então pessoas morriam em casa. O médico vinha até você e não você que ia até o médico. Não existiam exames para serem feitos. Essas cenas que a gente vê nos filmes, de leito de morte com a família toda ao redor da pessoa convalescente, isso era prática até muito recentemente. Se a gente pára para pensar, o hospital é que o ambiente estranho, o ambiente esterilizado, branco, com cheiro de produto químico, em que as pessoas mais caras a você não podem ter acesso a você porque existe um conjunto de regras ali, que existem  para o seu bem, mas que ainda assim... Quando a gente vê filme de alienígena, de abdução, não é tão diferente assim... um hospital e uma nave-mãe são bem parecidos!

O nosso herói pede ao médico para visitar o amigo e o médico, no início, é um pouco relutante. Ele pergunta: "mas você já viu um varioloso?". Como ele insiste, o médico autoriza. E aí ele é levado ao hospital por um funcionário, mas todos esses elementos que ele encontrou no percurso dele: o tram vazio com toda a imaginação, esse novo cenário que ele encontra na sala de espera, a hesitação do diretor do hospital em não querer deixar, mas acabar cedendo, embora um pouco contra a vontade.  Enquanto isso acontece, a cabeça do nosso querido Luciano vai a mil: 

 

Meu Deus! Que iria ver? Que se daria? De repente, parou, subiu uma escada. Subi também. Abriu uma porta de tela, entrou. Entrei com ele. Abriu outra, passou. Passei com ele.  Encaminhou-se para um compartimento. Segui-o. Onde estava eu? Sei lá! Não sabia! Não sabia!

 

Vejam que no próprio texto começam a aparecer frases muito curtas,  muitos pontos de exclamação, pontos de interrogação. O João do Rio tenta recriar um pouco essa hesitação. A cabeça do personagem vai a mil e o texto acompanha ele um pouquinho. Outra coisa que acaba contribuindo para o medo do Luciano é que o amigo dele está coberto por um cobertor, então ele não consegue ver nada quando ele chega. E o funcionário está muito calmo, ele fala "Ah, isso aqui não é grave, isso aqui vai escapar, mas tenha coragem". O fato de o funcionário estar mais tranquilo é uma coisa que, ao invés de tranquilizar, gera mais ansiedade ainda. E o funcionário retira o cobertor e o que acontece? O narrador não conta diretamente o que ele vê, mas primeiro ele explica: "fechei os olhos, abri-os, tornei a fechá-los".  Ele se preocupa em dizer para a gente primeiro qual é a reação dele antes daquilo que ele de fato vê, para criar um certo suspense.  É um "cliffhanger" (final de série do Netflix, que a gente fica "Meu Deus, o que que vai acontecer?!". Por isso que a gente acaba tendo que ver, numa sentada, a temporada inteira. Vai explicar para o chefe porque você está atrasado no dia seguinte...). A descrição dele é muito clara e muito fria. Existe muito pouca empatia. Vejam o que ele diz:

 

Eu tinha diante de mim um monstro. As faces inchadas, vermelhas e em pus, os lábios lívidos, como para rebentar em sânie.  Os olhos desapareciam meio afundados em lama amarela, já sem pestanas e com as sobrancelhas comidas, as orelhas enormes. Era como se aquela face fosse queimada por dentro e estalasse em empolas e em apostemas a epiderme. Quis recuar.

 

A única coisa que ele consegue reconhecer no amigo não é nem a voz, mas os cabelos.  Então vejam o grau de desumanização que é descrita aqui. O texto segue com o Luciano que não sabe nem como ele saiu do hospital, o que ele sabe é que ele saiu com "um louco desejo de chorar", ele fala em "um desejo desvairado". Ele sai do hospital tropeçando, ele diz, desce o morro quase que correndo. O que acontece quando ele olha para os arredores é que ele vai começar a aplicar essa imagem monstruosa que ele viu no amigo a todo o ambiente. O ambiente da cidade do Rio que ele descreveu antes como festosa, com pessoas que riam, em um ambiente tão agradável... Olha o que acontece agora: "Parei. Encarei o sol, e o próprio sol, na apoteose de luz, pareceu-me gangrenado e pútrido. Deus do céu! Eu tinha febre. Corri mais, corri daquela casa, daquele laboratório de horror". Então, vejam que, imediatamente, esse medo já começa a se manifestar.  O primeiro sintoma já está aqui: ele desenvolveu febre. E quais são as últimas palavras do Luciano? "Há epidemia, oh! sim, há epidemia!  E eu tenho medo, meu amigo, um grande,  um desastrado pavor". Essas são as últimas palavras do Luciano, pelo menos às quais a gente tem acesso - por quê? 

Entra o último parágrafo, o parágrafo que revela as cartas. "Luciano Torres, após a narrativa, caiu-me nos braços a soluçar".  É nesse momento que a gente descobre que não é o Luciano quem está falando, mas é o amigo do Luciano.

 

Era de noite e foi há dois dias. Ontem vieram dizer-me que Luciano Torres, meu amigo e colega, fora conduzido em automóvel da Assistência do seu elegante apartamento das Laranjeiras para o posto de observação. Está com varíola.

 

Essa frase final é o golpe de misericórdia. A gente viu como, progressivamente, ele começa a ficar cada vez com mais medo e com mais medo, até que ele chega ao pavor absoluto. E, após ter a visão do que ele chama de “monstro”, em um ambiente ao qual ele vai se referir como um "laboratório de horror", imediatamente (é pá-pum!), ele sai dali já com febre. Passam dois dias e o que acontece? Ele também vai para lá porque agora ele tem varíola. Por quê? Por causa do medo.

Então por hoje é isso! Você pode lembrar do João do Rio a próxima vez que você ver Sexta-feira 13.  No próximo episódio, a gente continua falando desse assunto. Nós vamos discutir um conto do Maupassant que se chama "O medo" ("La peur").

Um abraço a todos!                 

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