#25 A Coluna da Peste de Viena e a Grande Guerra Turca
Transcrição

INTRODUÇÃO – 00:00 a 03:01

 

Olá minha querida e meu querido, bem vindos ao Literatura Viral, o podcast em que eu discuto Literatura e Epidemias. Meu nome é Áureo Lustosa Guérios, eu sou doutorando em Estudos Literários e Humanidades Médicas. E no episódio anterior você me deu o seu voto de confiança, se você bem lembra! Porque pela primeira vez nós falamos de escultura aqui no Literatura Viral, e para a enorme surpresa de todos nós não tivemos tempo suficiente para acabar com o assunto. (risos)

Eu comecei o episódio anterior falando sobre promessas. E na verdade uma forma de cumprir promessas é construir monumentos votivos, que muitas vezes são igrejas. E eu dei o exemplo da Basilica del Redentore que é um projeto do Palladio, um dos grandes arquitetos da história. Uma igreja que se encontra em Veneza e que foi construída, justamente, para celebrar o fim da peste de 1575. E eu falei também como essa tradição de construir igrejas votivas para se livrar de catástrofes como guerras, como epidemias, invasões e etc., como essa tradição se transforma e, ao invés de igrejas, a partir de 1614 passam-se a construir colunas.

E a partir desse momento, embora esse não seja um podcast de ortopedia, a gente só falou de coluna até o final do episódio. Em 1614, em Roma se constrói a primeira coluna votiva, que retoma uma tradição das colunas da vitória, uma tradição pagã e romana. Eu mencionei como a retomada dessa tradição está atrelada a contra-reforma católica constituída em oposição ao protestantismo. E como a coluna também é um símbolo imperial, ela é absorvida pelo Império austro-húngaro e vai se espalhar então por outras cidades como Viena, Praga e etc. 

E esse foi então o nosso último episódio, ainda que a indústria do turismo esteja quase parada, eles certamente foi uma viagem. E uma viagem que ainda não acabou, porque nós ainda temos que discutir um monumento que se encontra em Viena e responde pelo simpático nome de Dreifaltigkeitssäule, e sim isso pode parecer o nome de uma música do Rammstein, mas na verdade é a coluna votiva de Viena, o pilar da Santa Trindade que nós discutiremos no episódio de hoje, senhoras e senhores. E é claro que para poder falar disso, eu vou ter que falar dos surtos de peste do século 17, Veneza bombardeando o Pathernon em Atenas e as guerras entre o Império austro-húngaro e o império turco-otomano. Então, sem mais delongas... (música instrumental) 


 

NOVA FREQUÊNCIA -  3:02 a 04:56

 

Olá, bem-vindo senhoras e senhores ao 25º episódio do Literatura Viral. E talvez você tenha percebido que na semana passada eu não publiquei nenhum episódio. E se você não percebeu... que feio! Porque eu senti saudade do senhor e da senhora. E esse ato de uma semana vai passar a ser recorrente a partir de agora, meus queridos e minhas queridas, o Literatura Viral vai passar a ser bissemanal e eu vou soltar um episódio a cada duas semanas, na verdade. E isso acontece por um motivo muito bom! Eu sou doutorando e os doutorandos "digivolvem" para doutor em algum momento, né? Eles têm que fazer essa passagem aí do Charmeleon que vira Charizard e tal... E eu devo fazer isso nos próximos quatro meses. Escrever uma tese de doutorado é algo que dá um bocado de dor de cabeça. E além de escrever e gravar o Literatura Viral, a gente ainda tem que dar aula e meio que viver, né? E como eu também gostava daquela fase da minha vida em que eu passava a noite dormindo ao invés de trabalhando, (risos) eu resolvi diminuir um pouquinho... aí não tem necessidade da produção do Literatura Viral, que é algo que eu faço com um enorme prazer, mas que nesse momento o dever vai passar na frente da diversão! Vejam que bonito!

Então a partir de agora eu vou publicar um episódio uma semana sim e na outra não. Mas na semana em que não houver episódio eu pretendo organizar lives no Instagram, então você pode seguir o perfil do Literatura Viral, @literatura.viral lá no Insta, e vou convidar pessoas para discutir os temas que são relacionados ao Podcast, que é algo muito mais fácil de fazer, a gente abre a câmera e começa a bater um papo. Então se você tiver com saudade, eu certamente estou com saudade de vocês, você vai poder me acompanhar a partir de semana que vem nas lives, fique de olho no Instagram que a gente vai publicar tudo lá. 

 

NOVO SITE DO LITERATURA VIRAL – 04:57 a 08:01

 

Mas tem ainda um segundo motivo do porque na semana passada, especificamente, eu não consegui publicar nenhum episódio e é porque eu, a Ana Carolina Torquato e Ana Paula Todt trabalhamos a semana inteira para montar o site do Literatura Viral. Literatura Viral agora é gente grande, nós temos um site! E o nosso site é literaturaviral.com.br, olha só o nome mais intuitivo que você poderia esperar! (risos)

Esse é o momento histórico para o Podcast, então o site já está no ar, acesse www.literaturaviral.com.br e lá você vai encontrar os episódios do Podcast, obviamente os links para os agregadores, se você quiser seguir a gente no Spotify, no Itunes, no Google Podcast ou se você quiser ouvir no próprio site... Você também vai encontrar mais informações sobre mim e sobre a minha formação, assim como a das duas santas e loucas colaboradoras, (risos) que só arranjaram sarna para se coçar né e me ajudam com várias coisas da pós-produção do Literatura Viral, que envolve editar, transcrever, colocar no site, jogar nas mídias... é um trabalhão meus queridos! E as queridas Anas fazem isso só na boa vontade mesmo.

Além disso, você também vai encontrar informações sobre os cursos que ofereço sobre as Humanidades Médicas e em cooperação com a Academia Médica, você também vai encontrar os links de inscrição para todas as palestras que eu vou dar no futuro próximo, assim como os vídeos das palestras passadas e das aulas abertas passadas, que ficaram gravados, eu alimento isso no site. Você também vai encontrar a entrevista que eu dei para a Universidade de Munique, na Alemanha, ela está lá também, os dois e-books que eu preparei junto com a Academia Médica também estão lá gratuitamente para você baixar... então dê uma olhada no site!

E outra coisa muito bacana que você vai encontrar no site são os textos, os contos, os quadros que eu menciono nos episódios e que a gente discute aqui com frequência. Sempre que o texto ou o quadro forem de domínio público, eu vou colocá-lo lá no site, então se você tiver a curiosidade de ler os contos que eu analiso aqui, como eu sei que muitos de vocês tem, né? Você pode entrar lá e você vai encontrar os textos. Em alguns casos, caso não haja traduções, eu vou colocar esses textos em língua estrangeira, espanhol, inglês, majoritariamente. Então, para resumir, vai estar tudo no literaturaviral.com.br, podcast's, cursos, palestras, os contos, os poemas, os quadros e muito mais... fica o convite. 

E como sempre a gente conta com a sua colaboração para dividir, para recomendar, para compartilhar... o meu muitíssimo obrigado a todos vocês que fazem isso! Ajuda demais o Podcast a crescer organicamente e a espalhar informação de qualidade, uma coisa de que a gente precisa desesperadamente, em todo esse contexto doido que a gente tem vivido.


 

A COLUNA DA PESTE DE VIENA (PESTSÄULE) E O BARROCO – 08:02 a 17:17

 

Mas então tá bom! Bora falar do que interessa. Então, se no episódio passado eu falei de várias colunas da peste, hoje eu gostaria de discutir uma única coluna e que se encontra em Viena. Então a gente pode chamar ela de Coluna da Peste de Viena ou Pestsäule, como ela é normalmente chamada, mas o seu nome oficial na verdade é Dreifaltigkeitssäule, então Coluna da Santa Trindade ou da Divina Trindade. E essa coluna é enorme, ela fica no meio de uma praça em Viena, ela tem 21 metros de altura, ou seja, tamanho de um pequeno prédio. E ela, de fato, fica próxima a uma igreja que tem praticamente o mesmo tamanho, a diferença são poucos centímetros. Então ela, efetivamente, tem a amplitude, o tamanho de uma construção de fato.

E na verdade isso não é nem muito surpreendente, porque as colunas votivas elas são imaginadas como complemento arquitetônico de uma construção e praticamente sempre de uma igreja. Esse é o caso da primeira coluna votiva que a gente discutiu no episódio anterior, a Coluna de Santa Maria Maggiore, em Roma, que fica justamente em frente à Basilica de Santa Maria Maggiore. Então existe um diálogo muito claro entre esse prédio, que é um santuário em que vão ser realizados os rituais religiosos e que está em diálogo com um elemento arquitetônico público, essa coluna, que normalmente se encontra no meio de uma praça, quase sempre exatamente na frente da igreja, estabelecendo, por simetria, essa conversa. Há, no entanto, uma coisa muito interessante sobre a Coluna da Peste de Viena que é: ela não parece uma coluna coisa nenhuma! 

Porque ela é piramidal, então ela não tinha eu nunca gente esperaria de uma coluna, de ser redonda, né? Alta, com capitéis gregos nas duas extremidades e uma estátua em cima... ela não funciona dessa forma. Ela tem um formato piramidal, portanto, triangular e ela é repleta de decorações e muitíssimas esculturas. Ela é muito ornamentada, justamente porque ela é um dos grandes monumentos do barroco, o estilo de arte do século XVII, o estilo tipicamente contra-reformista. E o barroco preza muito pela exuberância, pela excessividade de detalhes, combinações de vários materiais, linhas retorcidas, superfícies côncavas e convexas... e o barroco também busca muito a ideia de contraste, um contraste de luz e sombras, quando a gente fala de artes pictóricas, né?

Então quando a gente vê os quadros de Caravaggio, por exemplo, na técnica de chiaroscuro, de claro e escuro, você tem muito drama, essa iluminação parece que ligaram uma lanterna no meio da escuridão e você tem sempre iluminações muito dramáticas. E em esculturas algo muito parecido acontece, há o mesmo interesse em buscar combinações diferentes, de diferentes texturas, diferentes materiais... É muito comum nós vermos esculturas do barroco ou, então, ornamentos arquitetônicos do barroco, que envolvem vários tipos de pedras, metais e pedras preciosas, etc.

 E mesmo quando se trata de um único material como o mármore, que é muito usado, existe diferenças de textura nesse mármore. Então uma parte da escultura talvez tenha sido polida para que ela fique lisa, e isso é muito comum na pele, nas feições das estátuas, então para criar a ideia de uma tez, uma pele macia, fresca, né? Pele de pêssego mesmo. E muitas vezes essa maciez, essa polidez de certos pedaços da escultura vão contrastar com a aspereza e a rugosidade de outras partes das culturas, por exemplo, com as roupas, o que a gente chama muitas vezes de drapejo. 

E um ótimo exemplo disso seria uma escultura muito famosa do Gian Lorenzo Bernini, O Êxtase de Santa Teresa, que foi esculpida entre 1647 e 1652, então elevou 5 aninhos trabalhando naquele conjunto escultório. E há um nome um pouco mais preciso, um pouco mais correto, entre aspas, para esta escultura que seria: "Transverberação de Santa Teresa", na verdade. Porque dentro da tradição mística, o êxtase, a transverberação são coisas diferentes. O êxtase é um estado psíquico de um elevamento da mente, ela vem do grego "ékstasis", ék que está ligado a "exo", de "para fora", saída e stasis, de posição, de estacionário mesmo, então ékstasis é "sair para fora" E no caso aqui seria um sair de si, né? Um elevar-se... que vai conduzir a um sentimento de anulação e de transcendência de unificação com a essência divina ou com uma alma do mundo, de uma certa forma. No entanto, no que a gente vê no Êxtase de Santa Teresa, não é isso né? Ou não é só isso, pelo menos. O que a gente vê é um anjo que segura na mão uma flecha e está prestes a atravessar o coração de Santa Teresa com essa flecha do amor. E essa ideia da transverberação de ter o coração atravessado por uma flecha, às vezes por uma lança também, mas normalmente é por uma flecha, dentro da mística católica, está ligada também a uma ideia física, uma ideia de dor física e, portanto, de purificação, que está ligada de uma certa forma a uma purificação amorosa mesmo. Vejam que o coração é esse grande símbolo do amor, do sentimento amoroso e tal. Então da próxima vez que você for tomar uma cerveja com seus amigos e discutir as esculturas do Bernini, você pode se recusar a chama-la de O Êxtase de Santa Teresa, por que você pode reclamar que "êxtase" de Santa Teresa parece nome de uma bala que você compra nas raves em Ibiza, sei lá. (risos) E aí fica o convite de você chama-la de Transverberação de Santa Teresa. 

O caso é que essa escultura, na verdade, é um conjunto. Ela é uma escultura de mármore, mármore branco e a gente vê exatamente esse contraste entre o rosto liso, de uma textura suave, tenra da Santa Teresa, que inclusive parece ser muito jovem nessa escultura. E em oposição a isso a gente observa um drapejo ultra complexo, pedregoso e rugoso das vestes dela. Ela está, praticamente, inteiramente coberta por essa veste, esse hábito religioso, que vai se combinar aos pés dela onde a gente vê uma pedra, uma formação rochosa... E a gente vê que existe um certo "contínuo" entre as vestes dela e essa formação rochosa que estão em contrapartida a pureza, a beleza, a maciez do corpo do anjo, que é inclusive representado como uma criança, e a suavidade das poucas partes do corpo da Santa Teresa que nós conseguimos ver, um pouco do rosto, as mãos e os pés. E ainda que essa escultura seja inteira em mármore a gente consegue observar as costas da Santa Teresa e outros elementos que são detalhes, que são elementos, algo um pouco mais marginais, talvez, mais que são de outros materiais. Atrás da escultura nós vemos uma armação bronze-dourado que representa os raios da iluminação divina e ela se encontra em uma capela rodeada de pedras de várias outras cores, colunas de mármore enegrecido, enquanto que abaixo da Santa e do anjo nós vemos pedras de cor rubra. Portanto esse interesse do barroco de combinar texturas e materiais é muito evidente nesse projeto, que é um projeto icônico. A gente poderia dizer que "O Êxtase de Santa Teresa" é a coca-cola do Barroco, talvez. Então quando a gente leva em consideração essa vontade, esse grande amor que o barroco, de um modo geral, tem em explorar uma iconografia que é complexa, que é tortuosa, que é algo torcido e que se baseia, em grande medida, sobre o paradoxo ou contrastes muito grandes, contraste físicos, contrastes de texturas, contrastes de iluminação... e quando a gente leva tudo isso em consideração não é tão surpreendente no fim das contas. A gente vê que essa coluna deixou de ser uma coisa simples, um elemento arquitetônico meramente cilíndrico e passou a ser uma pirâmide que é algo amorfa e que envolve um projeto iconográfico muitíssimo complexo. 

 

O IMPORTÂNCIA DO NÚMERO 3  - 17:18 a 22:47

 

Mas essa pirâmide não é como as pirâmides do egito que tem 4 lados. Não! Ela tem só três lados. Vejam que ela é a coluna da trindade e, portanto, faz todo sentido que ela tenha três lados e em cada um desses lados nós vamos encontrar elementos simbólicos diferentes que vão conectá-los ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo, os três elementos que segundo a ortodoxia católica são três mais um e, portanto, compõe a trindade. Esse conceito trino vai se materializar nessa obra escultórica não apenas verticalmente, cada lado corresponde a um dos elementos da trindade, mas também horizontalmente, porque ela tem três níveis. Então a escultura tem três partes na vertical e 3 partes na horizontal, o que vai gerar 3 x 3, né? Vai gerar esse número 9, que é um número muito importante para o misticismo católico, mas também para várias outras tradições religiosas, porque esse número 9 é um número muito potente, inclusive dentro da cabala. Não é à toa que o Dante vai compor a Divina Comédia justamente martelando o número 3 na nossa cabeça, do início ao fim do poema. E assim nós temos três lados e três níveis que correspondem a nove coros angélicos, então você vai ter nove pequenos coros de anjos ao longo de toda a coluna em direção ao alto, onde a gente encontra um elemento escultórico em metal que justamente é a trindade.

Então nós vemos uma escultura do Pai, do Filho e do Espírito Santo que se posiciona, justamente, no topo dessa dessa estrutura piramidal, que é justamente a forma tradicional de uma coluna votiva. Uma coisa muito interessante que resulta desse projeto, muito exuberante é justamente o fato de que essa escultura ela pode ser observada de vários ângulos diferentes. Você pode dar volta na coluna e sempre há alguma escultura que está de frente para você é você consegue observá-la de várias perspectivas diferentes, que não é normalmente o caso das esculturas da antiguidade. Quando a gente vê as esculturas gregas quase sempre elas têm uma única frente que tem que ser observada e que se você dá a volta nelas, muitas vezes elas não são nem acabadas pela parte de trás, até porque com alguma frequência elas deveriam ficar encostadas em uma parede ou em algum outro detalhe arquitetônico. Então essa é justamente uma das coisas que o barroco vai explorar, que a escultura do renascimento ou a escultura da antiguidade não explorava tanto, que é justamente essa tridimensionalidade, o fato de que você pode dar a volta na escultura, que ela pode ser observada em 360 graus.

Nem sempre é tão amplo assim, às vezes são 270°, mas normalmente o grau de amplitude de observação de uma escultura do barroco tende a ser maior do que o das esculturas dos períodos anteriores. E agora pense comigo, se você monta uma coluna motiva piramidal dividido em três níveis e no topo você tem Deus nas suas três formas, você, provavelmente, vai ter na base os homens e no meio do caminho você vai ter algum tipo de intercessor ou anjos ou santos. Essa é uma estrutura extremamente habitual muito, muito comum que a gente vê em diversos produtos culturais, não só escultórico, mas arquitetônicos também. Essa ideia de que existe uma progressão indireta que leva a divindade, isso é feito através da intercessão de alguém. Então existe essa progressividade entre seres humanos normais, alguns seres humanos especiais, porque renegaram a carne ou porque foram abençoados de certa forma, então são santos, são pessoas de prestígio exacerbado, essas pessoas contatam alguns intercessores que, às vezes, são os santos, que, às vezes, é maria ou então anjos, etc., E finalmente essas entidades já sobrenaturais vão, finalmente, entrar em contato com uma sapiência máxima. 

Então existem níveis de gradações, e isso é exatamente o que a gente vai ver na Pestsäule de Viena. No nível baixo nós temos os seres humanos e no topo deles você encontra o Imperador, do Império austro-húngaro, Leopoldo Primeiro, porque não, né? Claro, colocamos lá a escultura do Imperador. - Se essa coluna fosse feita hoje, eu não sei, eu fico um pouco na dúvida quem é que ía estar lá, talvez o Steve Jobs, talvez a Kim Kardashian, talvez o Neymar, não sei. Depende de aonde essas esculturas fossem ser feitas e quem pagaria a conta. Se ela fosse feita em Roma e o Papa estivesse pagando a conta, eu suponho que não fosse o Imperador que a gente encontraria ali no topo da humanidade e, sim, o Papa. Mas no caso em Viena, né? O Leopoldo Primeiro está jogando em casa e, por isso, ele mete 7x1 e coloca a própria escultura no topo da humanidade. - Ele está, então, de joelhos olhando para cima e intercedendo, implorando aos anjos para que eles intercedam junto a Deus para - surprise - livrar Viena da Peste. 


 

OS SURTOS DE PESTE DO SÉCULO XVII – 22:48 a 33:45

 

Pois é, meus queridos, aqui nos defrontamos novamente com a dita cuja, com a "marvada", que não dá tréguas, né? Você já me ouviu falar sobre como A Peste devastou o mundo no século 6, no século 14, no século 19 e eu mencionei nos episódios anteriores como, após o grande surto de 1.348 a 1.350 e pouquinhos na Europa, a doença, a Peste voltaria uma vez a cada geração, mais ou menos. Ela não chegou a dizimar quase metade da população do continente inteiro, como ela fez no século 14, mas cada vez que ela aparecia em surtos menores ela poderia levar 5%, 10%, às vezes 40%, 50% da população de uma cidade, de uma localização específica. 

E a segunda metade do século 17, ou seja, entre 1650 e 1700, a Europa viu vários surtos de peste. É muito famoso o surto de Londres de 1.665, que perdurou até 1.666, ano em que a cidade pegou fogo, né? É o ano também do The Great Fire of London, então basicamente tava ali quase igual 2020, (risos) não foi um ano muito fácil para os nossos queridos amiguinhos de Londres. Tanto que a Peste matou 100 mil dos habitantes da cidade, isso é razoavelmente mais do que o corona fez no Brasil até esse momento e isso aconteceu em uma única localidade, então o percentual de letalidade dentro da população, de modo geral, é muito muito elevado e isso causa, claramente, um impacto profundo em todas as esferas da sociedade, da política, economia e a cultura, obviamente que é o que interessa normalmente aqui no Literatura Viral. E Londres não foi um caso isolado, a Holanda teve um surto de Peste no ano seguinte, que começou em 1667, bastante possível que esteja ligado com o de Londres de alguma forma, porque é próximo e existem laços comerciais muito grandes entre Amsterdã e Londres. E a Holanda vai sofrer com esse surto de Peste por mais um ano e pouco, dois anos, ele vai acabar em torno de 1669. Em 1668 é a vez da França ser visitada em vários lugares diferentes pela Peste; em 75 e 76 é a vez da Ilha de Malta lá no mediterrâneo, ao mesmo tempo que a Turquia e os Bálcãs experimentam também surtos de Peste. Os Bálcãs nessa altura do campeonato pertenciam ao Império turco-otomano... 

A gente tem que lembrar que no século 15 o Império bizantino sucumbiu à expansão dos turco-otomanos, que vão fundar o Império turco-otomano, e que vai se expandir ao longo dos Bálcãs então que vai agregar todas as áreas que hoje pertencem à Grécia, Bulgária Macedônia, Montenegro, Sérvia, Bósnia e Croácia, vão eventualmente fazer parte do Império turco-otomano, pedaços da Romênia, pedaços da Polônia, pedaços da Ucrânia... Então a fronteira do Império turco-otomano, na verdade, acabava quando começava o Império Russo. Não é à toa que a Rússia e o Império turco-otomano lutaram quase uma dezena de guerras, porque a Rússia sempre cobiçou a cidade de Istambul, que antes se chamava Constantinopla, porque ela é a saída do mar negro para o mediterrâneo, então ela é perfeita para você escoar a tua produção e para criar laços comerciais. E uma cidade de grande esplendor e de muita riqueza, justamente por causa dessa passagem. E essa ambição russa de dominar essa cidade é verificável, inclusive, no nome que ela tem em russo que é X, a cidade dos césares, a cidade dos czares, ou seja, ao chamá-la dessa forma e não com nome que ela tem que é Istambul, automaticamente você já costura a ideia de que existe uma legitimação de domínio russo sobre esse grande centro. Então não é surpreendente que os Bálcãs e a Turquia sofram com a Peste ao mesmo tempo. Por que na verdade a gente imagina essas regiões como separadas por causa do mapa geopolítico de hoje. Mas na época elas eram parte de um único grande aglomerado político que era o Império turco-otomano, que não é um Império baseado sobre estados-nações, como é a nossa estrutura política, mas ele é um estado pluriétnico e pluri-religioso em que há muitas línguas, há muitas etnias diferentes e há diversas religiões.

E a Peste vai chegar no nosso querido Império austro-húngaro também. Em 1679, então passaram-se três anos, ela chega em Viena e depois em Praga, em 1681, que é uma das cidades mais importantes do Império; em Dresden, um ano antes, em 1680 e Halle, que é na alemanha, em 1682. E Halle é um estudo de caso muito interessante porque a gente sabe que morreram na cidade 4.397 pessoas de uma população de cerca de 10 mil, então dá para a gente perceber como a mortalidade é extremamente elevada 43, 44, quase 50% da população, se isso não é um verdadeiro apocalipse, se isso não é o verdadeiro filme de zumbi, eu não sei o que é. Você pensar que uma a cada duas pessoas que você conhece cai morta. 

O impacto disso é profundo e a gente tem que lembrar que é uma cidade de 10 mil habitantes, ou seja, todo mundo se conhece, todo mundo tem um vínculo de alguma forma, mesmo que ele seja um pouco indireto, todo mundo sabe quem todo mundo é naquele ambiente. Então quando há uma morte, essa morte nunca é uma pura estatística, ela nunca é um dado isolado da realidade, não é só um número, como muitas vezes é o que acaba acontecendo para nossa experiência do coronavírus. Para o indivíduo que enfrentou a epidemia de Peste em Halle, em 1682, cada uma dessas 4.397 mortes significa algo para o indivíduo que sobreviveu. Pois bem. O quê que todo esse surto de Peste tem a ver com a nossa coluna? 

Bom, eu falei que é uma coluna da peste, é uma coluna votiva, ou seja, ela é construída como forma de honrar uma promessa, uma promessa de liberação da Peste. Existe um pedido de intercessão para que Deus livre Viena da Peste e depois, quando a Peste acaba, é necessário cumprir essa promessa. Se calcula aqui, mais ou menos, 76 mil pessoas tenham morrido nesse surto e conforme ele amaina, nos anos seguintes, já é comissionada a construção dessa Coluna da Peste. Há um artista que se chama Matthias Rauchmiller, então Mathias Moinho de Fumaça, é ele que vai bolar esse plano de fazer uma coluna que é, na verdade, uma pirâmide. E é ele que vai colocar uma estátua do Imperador "pagando de bonitão" bem no meio dessa construção. Vejam que quem mandou fazer é o Leopoldo Primeiro, que intercedeu pela população de uma forma muito interessante, ele fugiu da cidade. (risos) Então basicamente ele foi interceder em outro lugar, eu imagino! Porque ele juntou as suas trouxinhas e falou: "Moçada, boa sorte, fui!" E, de fato, ele só voltou para Viena depois de que a Peste acabou. Emtão fica aí registrado mais essa forma interessante de um líder político combater uma epidemia, né? A gente teve vários exemplos muito interessantes recentemente assim, né? O Presidente da Bielorrússia aconselhou vodka e passeio de trator para se tratar do coronavírus. - Achei bastante interessante. Pena que eu não tenho um trator aqui em casa para testar. Eu até imagino que fosse essa dica de saúde que o Gusttavo Lima tivesse seguindo na na live dele. E há muitos presidentes que combatem de outras formas muito interessantes, bastantes criativas, né? Tem gente que passa a manhã dando tiro, né? Já desde a alvorada, então prática de tiro, pode ser né? Quem sabe vai que acerta o corona! Tem outros que passam os fins de semana jogando golfe, porque tem que desestressar mesmo. Não está fácil para ninguém hein pessoal, e pior ainda para os presidentes. E realmente o nosso querido Leopoldo Primeiro acertou na mosca, porque ele fugiu e a Peste passou. 

Deve ter uma relação clara de causa e consequência: "Pelo bem geral da nação eu digo que eu vou-me!" E depois que acabou a Peste então ele volta e daí constrói o seu magnífico monumento celebrando esse grandíssimo ato heróico. E essa epopeia de pedra para celebrar o Imperador não diz respeito só a ele, mas ao Império, de um modo geral. Então os brasões das diferentes regiões e províncias, de cidades do Império, estão distribuídas ao longo das três fachadas do monumento. E o fato de que a gente tenha símbolos políticos... - Pensa que esses brasões seriam basicamente o equivalente de, talvez, o ícone de partidos políticos, ou números específicos que a gente liga a certas vertentes políticas. Mas eles estão sobrepostos e acavalados sobre outros símbolos, que são símbolos religiosos. Cada uma das fachadas é ligada a uma das entidades da Trindade e se você não percebeu isso sozinho, não faz mal, porque eles escreveram isso para ti lá, mas escreveram em latim, tá? Então uma delas tem Deo Patri Creatori, Deo Filio Redemptori e Deo Spiritui Sanctificatori. 

Então não precisa ser nenhum Einstein para somar dois mais dois aqui e nem um Cícero para ler o latim. A mensagem é muito clara e existe uma correlação evidente entre o Império austro-húngaro e a sapiência divina. E existe uma sobreposição do Imperador e da figura de Deus. Então de uma certa forma esse monumento nos apresenta uma ideia de uma teocracia. O Imperador, de certa forma, representa a vontade de Deus na terra e é por isso que ainda que ele fuja, ele consegue interceder pela população. Uma coisa misteriosa! Mas tudo bem, porque todo mundo sabe que o Imperador faz o certo por linhas tortas. 


 

A COLUNA DA PESTE DE VIENA E A GRANDE GUERRA TURCA – 33:46 a 42:43

 

Mas há ainda um outro motivo para todos esses símbolos do poder político do Império estarem nesse monumento. Você vai lembrar do meu episódio anterior que eu mencionei como as colunas votivas elas englobam duas ideias diferentes: uma que é uma ideia religiosa, que está ligada a flagelação de Cristo; mas a outra é uma tradição pagã que está ligado as Colunas da Vitória. E há uma coluna específica que é muito influente para a história da arte que é a Coluna de Trajano, que está em Roma até hoje. E essas colunas pagãs são monumentos que buscam celebrar vitórias e grandes feitos militares, feitos de batalha, e qual é o conflito a que esse monumento está relacionado? 

A Grande Guerra Turca de 1683. E o nome em alemão é ainda mais legal: Großer Türkenkrieg. E esse conflito envolve uma lista de entidades políticas que é meio "no sense", é meio sem noção. De um lado nós temos o Império austro-húngaro do Habsburgo, mas que é acompanhado também pelo rei da Polônia- Lituânia, por Veneza, pelo Império Russo, pelo Império Espanhol e pelo Ducado de Mântua e Montenegro e vários grupos rebeldes na Sérvia, Grécia, Albânia, Bulgária, Macedônia, etc., do outro lado nós temos, o Império turco-otomano e alguns aliados, o Canato da Crimeia, e sim, isso era uma instituição política, - Canato está ligado à ideia de "khan" e lembrem do Gengis Khan e isso, provavelmente, vai te dar alguma ideia do que é que a gente está falando - junto com os senhores feudais de outras regiões da Moldávia, da Valáquia e da Transilvânia e, sim, todos esses nomes estão conectados com histórias de vampiro. Lembrem que o Drácula vem da Transilvânia, que em latim quer dizer "para além dos bosques", "para além das florestas" e o Drácula é baseado sobre uma figura histórica chamada Vlad Dracul, da Valáquia, que é justamente uma das regiões que está lutando aqui do lado do Império turco-otomano. Pois bem. Esse mosaico, esse panorama político muito do louco, quem diria que Veneza, Espanha, Lituânia e a Áustria poderiam estar lutando contra o Império turco-otomano que está junto com um Canato ligado aos mongóis? Muito, muito insano. 

E, claramente, o que vai levar essa conjuntura muito exuberante são fenômenos históricos, extremamente complexos que não interessam para o nosso objetivo final aqui. O que, sim, é importante a gente pensar é que o Império turco-otomano sempre desejou a região de Viena. Viena se situa nas margens do Rio Danúbio. Sim, o Danúbio Azul, lá da música, esse mesmo. O Danubio nasce no sul da Alemanha, na Floresta Negra, e cruza a Alemanha, a Áustria, o que é hoje a Hungria, passa pela Sérvia, pela Bulgária, ele inclusive serve de fronteira entre a Bulgária e a Romênia, para finalmente desaguar no Mar Negro, não muito longe da fronteira com a Ucrânia e não muito longe também da Crimeia. Então vejam que são regiões que são turbulentas até hoje. Houve uma Guerra da Criméia em 1853 a 1856, e a Crimeia ainda dá problema entre a Rússia e a Ucrânia até hoje. 

Para os Turco-otomanos esse rio é estratégico, ele é estratégico porque ele cruza uma grande parte do Império turco-otomano, ele é estratégico como via de transporte e como domínio de rotas comerciais, além de ser uma via de acesso aos mercados da Europa Ocidental. O domínio sobre Viena, portanto, é muito interessante para consolidar os vários territórios que já pertenciam ao Império turco-otomano e oferece uma vantagem estratégica e logística muito grande. Portanto, os Turco-otomanos cobiçam conquistar Viena. Tanto que já em 1660, ou seja, 20 e poucos anos antes de eles finalmente chegarem as muralhas de Viena e sitiarem a cidade, em 1683 - nós já vamos falar disso - mas mais de 20 anos antes, eles começam um projeto de construção de infraestrutura e de renovação de estradas, de pontes, para que justamente os exércitos possam encontrar vazão e chegar a cruzar, a pé muitas vezes, carregando muitas vezes artilharia, cavalaria, etc., para que eles possam de fato chegar às portas de Viena. 

É nesse contexto que eles vão restaurar a ponte Nervet Sokolov, na Bósnia, na cidade de Višegrad, que é Património da Humanidade até hoje. Ela está lá, muito bem, obrigado. Ela foi construída no século 16, restaurada no século 17, em outros momentos também. Então é uma ponte que tem mais de 500 anos e que é o tema principal de uma obra do prêmio nobel de literatura a Ivo Andric e essa obra se chama "A Ponte Sobre o Drina". Se nós juntássemos todas as riquezas do mundo e transformássemos em uma biblioteca, esse livro certamente tem um espaço de grandíssima proeminência. Porque aquela obra, basicamente, é a perfeição transcrita para o papel. - Fica a dica pessoal! Leiam "A Ponte Sobre o Drina", você merece isso! - E feitas todas as reformas, o Império turco-otomano pode, então, marchar as suas tropas, cerca de 150 mil homens e acampar às portas de Viena. A cidade se prepara para um sítio e o sítio acaba não acontecendo de verdade, porque depois de só seis dias, um exército de liberação chega marchando a partir da Polônia e da Lituânia; há um confronto de cerca de 80 mil homens contra 150 mil do Império turco-otomano; mas há um ataque muito bem sucedido de cavalarias. São 18 mil cavaleiros o que, provavelmente, é o maior ataque de cavaleria da história, que se não "O" é um "DOS". 

Essa batalha acaba sendo então uma derrota amarga para o Império turco-otomano que vai ter que se retirar. E na realidade, mais para frente, vai ficar evidente que esse marca o momento de maior expansão do Império turco-otomano na Europa. Então esse é o momento de alguma importância quando a gente pensa na geopolítica do século 17 e de várias coisas que vão acontecer mais para frente. Lembremos que esse conflito entre o Império austro-húngaro e o Império turco-otomano ainda é presente o suficiente para que ele seja uma das causas da Primeira Guerra Mundial. O sítio de Viena e essas batalhas aconteceram em 1683, ou seja, quatro anos depois do surto de Peste de 1679. Isso casa e combina muito bem com a ideia que eu discuti no episódio anterior, de que as colunas votivas, muitas vezes, são erguidas para honrar uma promessa feita em tempos de calamidade. Muitas vezes de Peste, às vezes de guerra, muitas vezes as duas coisas ao mesmo tempo. Então a Coluna da Peste de Viena ela está lá para ser um monumento de intercessão contra a Peste, mas ela automaticamente, por causa de todo esse imaginário político que circunda esse discurso religioso, ela também é o monumento que celebra essa vitória contra o Império turco-otomano. E o Imperador ao se ajoelhar, ele se ajoelha acima de uma figura de uma velha que está prostrada por terra e que é a personificação da Peste. E essa Peste está sendo derrotada pela intersecção de uma santa e de um anjo que carregam lanças e uma cruz. E essa batalha entre religião e peste se encontra exatamente abaixo do Imperador austro-húngaro, então existe também uma representação clara e uma sobreposição evidente entre a peste e os turcos, né? 

Retrabalhando mais uma vez nesses conceitos de orientalismo que eu já mencionei em outros episódios quando a gente discutiu, por exemplo, O Último Homem, da Mary Shelley, ou então A Guerra dos Mundos, do H. G. Wells. Então vamos recapitular as datas: 1679, Peste em Viena; 1683, sítio de Viena, final feliz. Não tem mais peste e a cidade está liberada. A guerra contra os turco-otomanos vai continuar. 

 

VENEZA E A EXPLOSÃO DO PARTHENON – 42:44 a 48:16

 

Uma das coisas que vai acontecer, por exemplo, é que Veneza vai se aproveitar da dificuldade logística temporária do Império turco-otomano, os exércitos estão todos nas proximidades de Viena, para atacar o Peloponeso para tentar conquistar o que é hoje a região da Albânia e até mais ou menos Atenas. 

Veneza vai atacar Atenas em 1687 em uma missão que é dirigida por Francesco Morosini, que é o doge naquele momento, e por que que eu tô falando do nosso não tão querido Morosini? Porque você talvez conheça Atenas, você já deve ter visto alguém que postou uma foto quando estava lá no Parthenon né? Que é o complexo religioso da antiga Grécia, que se encontra em Atenas, os templos e coisa e tal... E hoje quando você visita o Parthenon, você só vê ruínas, né? Mas uma coisa muito interessante é que ele é uma construção que data já da Grécia antiga, que tem literalmente milhares de anos, mas nesse momento ele ainda estava perfeitamente de pé, completinho, com todas as suas colunas, com seu friso intacto, diversas estátuas e olha só que interessante: ele estava lá, dois mil anos, numa nice e como os turcos sabem muito bem que o Parthenon é um prédio, uma construção de significado cultural e, talvez, até religioso muito importante, eles usaram o Parthenon durante um tempo como mesquita, mas, eventualmente, ele se transforma em um armazém de pólvora e parte do motivo do porque eles vão armazenar os armamentos lá, - vejam que eles estão em guerra com Veneza e eles estão em sítios, estão sendo atacados por Veneza, - um dos motivos que eles colocam lá é porque eles pensam: - pô, esse prédio super valioso para eles, eles não vão bombardear o Parthenon, claramente, né? Então vamos deixar nossa pólvora lá dentro porque vai dar boa, eles não vão ter coragem de destruir tudo! É, pois é, né pessoal? É, o plano não é tão bom, né? - Eu não sei, eu tenho uns amigos aí que estudam restauro, eu vou perguntar o que que eles acham sobre você armazenar bombas, basicamente, dentro de monumentos históricos, que você busca preservar, né? Não é uma ideia muito interessante, porque talvez, assim, quem sabe, em algum caso, pode dar ruim. Pois é, deu ruim!

Morosini, aparentemente, fica sabendo dessa informação e aí o que é que ele faz? Dirige os morteiros para lá e "tacale chumbo", consegue atingir o Parthenon, que explode. A explosão é magnífica, de certa maneira, o teto é completamente destruído, 3 das paredes vão para o "beleléu", em um dos lados só sobra de pé uma das colunas, 3/5 do prédio é completamente danificado, parte do friso, três quintos do friso, também, que estava intacto desde a antiguidade, é destruído, estátuas voam e mais de 300 pessoas morrem na explosão ou atingidas pelos fragmentos de pedra que são arremessados numa área muito ampla. Porque o Parthenon, ele fica numa colina acima de Atenas. O Morosini e os exércitos de Veneza vão conseguir desembarcar e vão ocupar Atenas. Eventualmente eles vão acabar escapando um tempo depois, porque uma missão turco-otomana vai chegar para liberar a cidade. Quando eles vão embora eles resolvem levar pelo menos algumas estátuas do Parthenon, para né? Tem que mostrar serviço lá em casa, né? 

Então não bastou explodir a coisa toda, eles vão lá arrancar o que sobrou e ao fazê-lo várias das estátuas acabam caindo no chão e se reduzindo a pó. Uma delas é uma estátua de Atenas em uma carruagem e outra uma estátua do Poseidon, que são destruídas no processo. Aí como não sobrou muita coisa para contar a história, mas o Morosini ainda tem que mostrar alguma coisa quando ele voltar para Veneza, ele resolve levar os Leões de Pireus, que são duas esculturas gigantescas de leões, tem mais de 3 m, que ficavam na entrada do Porto de Atenas - Pireus. Eles retiram então os leões do Porto de Atenas levam-os à Veneza e eventualmente eles serão colocados nas portas do Arsenale di Venezia, né? Estão lá até hoje, sentadinhos. No dia que você for a Veneza, você pode ir lá ver os dois Leões de Pireus. 

E fica aí a dica, né? Uma ótima receita para você montar uma cidade bonita, interessante, museus legais, que nem o Louvre ou que nem o British Museum, em Londres, é justamente roubar. Essa é a dica secreta dos museus da Europa, né, roube obras de arte de outras populaçõe. Uma receita de bolo que os ingleses vão seguir alguns séculos mais tarde, porque em 1800 uma missão inglesa vai de fato passar três anos retirando as esculturas que sobraram... Quando você vai ao Parthenon hoje em dia para visitar, esse monumento que é inclusive Patrimônio da Humanidade declarado pela UNESCO, você vai ver um quatro paredes, sem teto e sem estátua nenhuma, inclusive, está faltando alguns pedaços do templo porque eles, convenientemente, estão no British Museum, levados por uma missão inglesa e eu não sei o que eles estão fazendo lá até hoje. Mas fica a dica! Só, por favor, não espalhem por aí que fui eu que revelei esse ingrediente secreto, porque se o Boris Johnson ou o Giuseppe Conte me ligarem aqui em casa reclamando que eu estou difamando, eu vou negar, hein! 


 

OS ESCULTORES DA COLUNA DA PESTE – 48:17 a 53:39

 

A explosão do Parthenon acontece então em 1687, ou seja, 4 aninhos depois do sítio de Viena ter acabado. O sítio acaba então em 83, eles imediatamente começam a construir esse monumento, o escultor principal que era Matthias Rauchmiller vai acabar morrendo em 1.686 e quem vai continuar a obra dele, vai ser um conjunto, na verdade, de artistas, um dos principais é o Johann Bernhard Fischer von Erlach, que é um arquiteto muito importante e quando jovem trabalhou no atelier do Gian Lorenzo Bernini, do "O Êxtase de Santa Teresa" lá em Roma. Então não é nem um pouco surpreendente que uma das maiores influências sobre a carreira e a estética que o Von Erlach adota seja justamente Bernini e uma outra influência seja o Palladio, que a gente mencionou inclusive no episódio anterior também. O fundela vai ser uma figura importantíssima para urbanização da cidade de Viena e para vários dos projetos que a gente vai encontrar na cidade até hoje, mas ele também é muito importante para a história da arquitetura porque em 1721, então vários anos depois, ele vai publicar uma obra que se chama Plano de Arquitetura Histórica e Civil, o nome alemão é super bonitinho - Entwurf einer historischen Architektur, e que é um dos primeiros estudos de história comparada da arquitetura. Então ele mostra vários tipos de construção e diferentes lugares do globo e ela é muito ilustrada também. Então essa foi uma obra muito influente já de imediato e para desenvolvimentos posteriores. Ele não trabalhou sozinho. No entanto, um escultor chamado Paul Strudel, sim, Strudel que nem o bolinho mesmo - (risos) que depois eventualmente vai virar um nobre, vai virar o Baron von Strudel e Vochburg, esse "von" em alemão é um título de nobreza e é algo comum que a gente veja artistas receberem essa titulação equivalente do "sir", em inglês. 

Vejam o Goethe, acontece isso com ele também. Ele é o Wolfgang von Goethe, e foi exatamente o que aconteceu com Erlach, também ele virou von Erlach, em 1696, justamente por causa dos muitos serviços que ele prestou a monarquia austro-húngara. O Strudel vai ser o responsável pela estátua do Rei Leopoldo Primeiro e uma das coisas que me agrada muito de todo esse complexo escultório e com essa Pestsäule é o fato de que o plano de base vai ser concebido junto com o italiano chamado Ludovico Ottavio Burnacini Burnacini, que era o diretor de teatro e de festividades da corte dos Habsburgos. Então basicamente ele era o cara responsável pela programação cultural para entreter os monarcas e decorar as festas da corte, decidir que horas que acaba o balé, que horas que começam os fogos de artifício, etc.. Ele é inclusive uma ótima fonte para a história do teatro e para gente escrever histórias culturais da vida na corte,, porque ele produziu literalmente centenas de desenhos de cenários e vestimentas para óperas, para peças de teatro e muitos desse desenho sobrevivem até hoje. 

Ele vai desenhar muitas das ideias dessa constituição da Coluna da Peste que é profundamente teatral, é isso que é interessante. A gente tem um arquiteto, engenheiro, especializado em produzir espetáculo, teatro e ópera e vai participar no desenho na concepção de como essa escultura, como esse grupo escultórico tem que se comportar. Então vejam que a ideia de drama, a ideia de combate de celebração da vitória, de celebração do cumprimento da promessa e liberação da peste, essa ideia é muito importante para esse monumento. Ele é tão importante que chamaram um cara do teatro. - Eu suponho que as peças que ele dirigia e montava deveriam deixar o público literalmente petrificado. (risos) Eis então a coluna votiva da peste de Viena, um monumento que vai buscar celebrar o fim de um surto de peste ao mesmo tempo que uma vitória militar sobre o Império turco-otomano. Isso é feito através do enaltecimento do Imperador da casa dos Habsburgo, que é representado quase que no centro dessa constituição, sobre a peste que está sendo derrotada pelo poder do catolicismo e há claros elementos de orientalismo e demonização, tanto da doença quanto dos turcos. Ele aparece como um intercessor e, portanto, quase que como um santo que fala diretamente com arcanjos e etc., que remetem o recado e as preces dele à trindade, a Deus pai, Filho e Espírito Santo que resolvem acatá-las. E para construir essa coisa toda estão envolvidos escultores, arquitetos, urbanistas e até um diretor de teatro. Quem diria hein? 


 

AGRADECIMENTOS – 53:40 a 56:55

 

E é isso que eu tenho para dizer por hoje. Mas antes de terminar eu gostaria de agradecer a três pessoas. Primeiro a dois colegas podcasters, ao Pablo, do podcast Medicina do Conhecimento, que me convidou para participar de um dos seus episódios. Então a gente passa uma meia horinha discutindo o que são as Humanidades Médicas e como elas podem ajudar no processo de Humanização da Medicina. Foi um papo muito bacana e o Pablo produz um material muito legal, então fica a dica, deem uma olhada, eu vou linkar aqui na descrição do episódio também. O podcast dele é o Medicina do Conhecimento. Eu também queria agradecer ao Bruno que produz o podcast Med Rock, que fala sobre medicina e rock'n'roll. Genial! Acho a ideia brilhante! E a gente também bateu um papo aí, legal para caramba na semana passada, numa live no perfil do Bruno no Instagram. Nós conversamos muito sobre o papel da Literatura e da Arte na formação dos profissionais da saúde. Foi um papo super legal, o Bruno é um cara nota 10, foi um prazer. E fica aí a dica então do podcast que ele produz com alguns amigos, o Med Rock. Vocês vão achar no Spotify e em vários agregadores. 

E acima de tudo, eu gostaria de agradecer à Ana Carolina Torquato, que é doutora em Literatura Brasileira e Estudos Animais, pela Universidade Federal do Paraná - UFPR e que também fez seu mestrado na Universidade de Sheffield, na Inglaterra, e tal. E que eu meti na maior furada, porque a Ana foi, de fato, quem montou o site do Literatura Viral, que a gente está lançando essa semana com esse episódio. Então, além de ser maravilhosa e doutora em Literatura, a gente descobriu que ela tem essa vocação para ser web designer. A Ana, coincidentemente, também é a minha namorada, então é dessa forma que eu consigo meter ela nessas furadas. Mas no fim das contas, ela pode até ter feito um bom negócio, porque, aparentemente, a partir de agora quando tiver faxina aqui em casa o banheiro vai ficar comigo até o fim dos tempos! Fazer o que, são os ossos do ofício, né?

E a Aninha oferece dois cursos online que se chama Grupos de Estudos em Língua Inglesa, que basicamente são aulas de Literatura, são grupos de leitura em que os alunos leem obras literárias em inglês e depois discutem elas em inglês também, a um nível intermediário ou em um nível avançado. Então se você fala inglês e quer praticar, quer fazer aula de conversação, bater um papo, aprender sobre literatura ao mesmo tempo e melhorar o seu inglês, né? Essa, talvez, seja uma oportunidade interessante. Contate a Aninha no Insta dela @ninatorquato, eu vou deixar linkado aqui na descrição do episódio também ou você pode acessar o site do Literatura Viral e entrar em "Nossa Equipe", você vai ver ela lá, vai ter como contratar ela. Além de ver também algumas imagens da Coluna da Peste de Viena, que vai estar lá no site também. Então fica mais um motivo para você acessar o site, olha que bacana! E eu deixo aqui os "reclames do plim plim" como uma forma de manifestar a minha gratidão, agradecer pela ajuda tremenda e enorme, porque deu um trabalhão fazer esse site meus queridos. 

 

PRÓXIMO EPISÓDIO: A CANTATA 25 DE JOHANN SEBASTIAN BACH – 56:54 a 1:00:04

 

E no próximo episódio do Literatura Viral nós continuamos em área de fala alemã e pela primeira vez a gente vai falar de música. Para discutir esse assunto eu convidei um grande amigo meu, um cara que eu conheço desde o jardim de infância, desde que eu tenho três anos de idade, Gustavo Weiss Freccia, que é músico, cantor lírico, especialista em viola da gamba e é doutorando em Performances Culturais, pela Universidade Federal de Goiás. Ele também é professor de música de câmara na Escola de Música de Brasília e fez uma série infinita de coisas, é mestre em música pela UFG também e está na mesma lida que eu aí, nos estágios finais do seu doutorado. E eu convidei o Gus para discutir aqui no Literatura Viral uma cantata do nosso queridíssimo Johann Sebastian Bach, a cantata número 25, que se chama "Não há nada saudável no meu corpo", que em alemão fica "Es ist nichts Gesundes an meinem Leibe", uma obra de 1723. Então, até a próxima senhoras e senhores!

 

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