#0 Literatura Viral, um podcast contagiante
Transcrição

  Olá, meu querido, minha querida. Bem vindo ao Literatura Viral: um podcast em que eu discuto literatura e doenças, mais especificamente epidemias. Meu nome é Áureo Lustosa Guérios, eu sou doutorando em Estudos Literários, na Universidade de Pádua, na Itália, mas, sou 'manezinho da ilha', aqui de Floripa. E, a minha pesquisa pertence a um campo que a gente chama de Humanidades Médicas ou Medicina Humanística, que é um cruzamento inusitado entre História Cultural, estudos literários e medicina, de modo amplo, mas, na verdade e especificamente história da medicina história da microbiologia. E, as coisas que eu estudos são bastante relevantes pro que tá acontecendo agora durante a crise do corona.

   Até dois meses atrás, quando explicava para as pessoas o que que eu faço, metade me olhava com uma cara de 'eu não estou entendendo muito bem' e a outra metade fazia careta dizendo, pensando, 'meu deus que desperdício, para que que serve um negócio desse?' Na verdade, até hoje, eu desconfio que a minha avó não sabe muito bem o que que eu faço da vida. A questão é que isso mudou. Cada vez mais eu me convenço da relevância da literatura para nos oferecer insights sobre como lidar com essa situação. Insights sobre a condição humana, em tantas situações da vida. Especialmente em tempos de turbulência como esse. Não é à toa que, nesse momento, em que a Itália já tem mais de 20 mil casos de corona, duas das grandes obras literárias do século 20 voltaram a estar entre a lista das dez mais vendidas. Uma delas é o Ensaio sobre a cegueira, do José Saramago e, a outra, é A Peste, do Camus. E eu acho fascinante o fato de que as pessoas, nesse momento em que tá todo mundo sobre quarentena, em que reina o medo, em que reina desinformação, as pessoas não vão buscar os insights ou os consolos ou, pra usar uma palavra bonita, o solaço, nos textos médicos. Elas buscam isso, muitas vezes, na arte e na literatura. Isso demonstra a relevância e o tamanho da contribuição que a literatura pode oferecer. Por isso, eu resolvi começar esse podcast. Eu vou fazer pequenos episódios, de 20 a 30 minutos, em que eu discuto elementos de história cultural e de literatura e também de história da ciência, e eu vou tentar entrelaçar todos esses elementos, combinando eles em perspectivas, as mais variadas. Então, a gente vai falar aqui sobre o medo, sobre a perseguição, sobre o ódio e a xenofobia, mas, também sobre a compaixão, a literatura horror, a literatura para crianças, porque, sim...(rs) tem literatura de epidemia para criança!

  As possibilidades são muitas e um panorama final vai ser certamente exuberante, no mínimo curioso. Eu vou organizar o podcast de forma que os episódios funcionam como pequenas pílulas literárias: eles podem ser consumidos em sequência, mas eles não são exatamente um curso de literatura então, cada um deles também vai ser uma unidade em si. Ele vai poder ser ouvido em isolamento, se você quiser, e quando você lava louça, limpa tua casa, tá trancado no trânsito. Aproveita a quarentena aí, meu filho, bora ler 'uns livro'. E, eu vou buscar criar paralelos e tratar de literatura brasileira, mas de literatura estrangeira, de literatura contemporânea, mas, também de literatura antiga. Porque, em se tratando de epidemias, certamente quanto mais amplo for o nosso panorama, mais rico ele vai ser.

   No fim das contas, o que a gente busca é o caos! Eu sou que nem o Chacrinha, eu vi para confundir. E, você também já deve ter percebido como essa coisa vai ser conduzida. Por um lado, eu não vou abrir mão de um discurso acadêmico e douto. As palavras têm poder e é muito importante que a gente seja, sim, preciso e, se necessário for, eu vou usar palavras estrangeiras e eu vou me permitir citar o Adorno, se necessário, ou o Dürkheim, ou quem quer que seja; mas por outro lado, eu também acho importantíssimo evitar uma verborragia e é o que muitas vezes acaba separando o discurso dentro e fora da universidade. Então, espere sim ouvir termos elegantes do grego, mas também espere me ouvir fazer erros de concordância e falar 'os pão', beleza? E, para terminar, eu te agradeço pelo teu tempo e pela tua disposição, se você embarcar nessa aventura, comigo: e te prometo que não vai ter zyka! vai dar boa! Um abraço!

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